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Land Rover Serie I: Uma segunda vida elétrica

Depois de anos de experiências com eletrificação — de uma Harley ao restauro de um Gurgel E-400 e, mais tarde, à conversão de Fuscas —, Bigo Berg encontrou no Series I de 1956 o laboratório ideal. O objetivo? Aperfeiçoar uma solução que preserva a essência do clássico e lhe devolve o fôlego para continuar rodando.

Por George Costa | Fotos George Costa

Há carros antigos que parecem pertencer a outro tempo. Outros, mesmo após sete décadas, ainda surpreendem quando colocados diante do inesperado. É o que acontece ao ver um Land Rover Series I de 1956 cruzar a cidade sem o som característico do seu motor original.

Por fora, ele continua sendo exatamente o utilitário inglês dos anos 1950, mantendo a carroceria, o chassi, a transmissão manual e a mecânica robusta que construíram sua reputação. A diferença fundamental está sob o capô: o motor a combustão deu lugar a um sistema elétrico de 75 volts, com motor trifásico de 33 cv e 32 baterias de fosfato de ferro-lítio (LiFePO₄). Mas o mais fascinante não é o fato de ele ser elétrico, e sim o fato de continuar sendo, em essência, um Land Rover.

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A Trajetória Antes do Clássico

O Series I de 1956 não foi o ponto de partida de Bigo Berg no universo da mobilidade elétrica. Muito antes de o tema ganhar tração, ele já experimentava o conceito. Quando atuava como diretor na Corneta — fábrica de sua família em Osasco —, desenvolveu uma Harley elétrica em uma época em que quase tudo precisava ser descoberto na prática.

Na sequência, veio o projeto com o Gurgel E-400. Diferente de uma conversão, o modelo já havia sido concebido como elétrico de fábrica, cabendo a Bigo o trabalho de restauração. O exemplar hoje integra o acervo do Museu CARDE.

Esses projetos o colocaram diante de um desafio complexo: substituir o conjunto mecânico original de um automóvel sem descaracterizá-lo. O passo seguinte foi a conversão de um Fusca com um kit importado dos EUA. No entanto, o custo de cerca de US$ 70 mil inviabilizava a solução comercialmente, dando início a uma longa fase de pesquisa e desenvolvimento próprio.

A Engenharia Invisível da Eletrificação

Eletrificar um carro antigo exige muito mais do que remover o motor a combustão e instalar baterias. Cada veículo demanda uma equação específica entre peso, autonomia, espaço, desempenho e perfil de uso. Um compacto urbano não exige o mesmo conjunto de um utilitário pesado, assim como um modelo de coleção demanda soluções diferentes de um carro de uso diário.

Nesse processo de tentativa e erro, a equipe compreendeu que não existe uma receita única. Hoje, a experiência acumulada permite projetar sistemas sob medida para cada aplicação — aprendizado que foi totalmente aplicado no Land Rover.

Do Motor Quebrado ao Laboratório Sobre Rodas

A história do Series I elétrico começou por acaso. O motor original do utilitário apresentou um problema no mesmo período em que a equipe desenvolvia um buggy elétrico. Veio então a ideia: em vez de reparar o motor antigo, por que não aplicar no Land Rover o conjunto que estava sendo projetado para o buggy?

O Series I serviu como um laboratório exigente, enfrentando o trânsito urbano e o uso fora de estrada. A premissa, porém, era clara: não transformar o clássico em outro carro. A proposta não era criar um veículo moderno disfarçado, mas dar nova vida ao modelo, preservando sua identidade e substituindo apenas o que o impedia de rodar.

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Mecânica Original Preservada

Esteticamente, o Land Rover permanece intocado. Não há alterações externas, estética futurista ou intervenções no chassi original — a única adaptação estrutural foi a criação de um suporte removível para o motor elétrico.

O projeto foi concebido para ser totalmente reversível. Caso haja o desejo de retornar à configuração original, basta retirar o sistema elétrico, reinstalar o motor a combustão mantido guardado, recolocar o tanque de combustível e refazer as conexões.

Do câmbio para trás, a mecânica original permanece ativa: transmissão manual, embreagem, freios, tração 4×4, caixa de transferência e reduzida. A adaptação foi feita na flange do motor para permitir o uso da embreagem original, mantendo a experiência tátil de condução do Series I.

Desempenho e Tração Off-Road

Apesar dos 33 cv declarados, o torque instantâneo do motor elétrico transformou o comportamento do utilitário. O ganho de força e agilidade fez com que a primeira e a segunda marchas se tornassem quase desnecessárias no uso urbano, sendo possível rodar na maior parte do tempo em terceira marcha. Em testes na Rodovia Raposo Tavares, o modelo atingiu 120 km/h.

A conversão também preservou a capacidade off-road. O sistema 4×4 e a reduzida continuam operacionais e foram testados em trilhas. A entrega imediata de torque mostrou-se vantajosa em trechos de baixa velocidade e alta exigência de tração, apresentando um rendimento superior ao do conjunto original.

Baterias, Autonomia e Uso Diário

As 32 baterias LiFePO₄ foram acomodadas no espaço do antigo compartimento do motor, mantendo a distribuição de peso próxima à original. O sistema conta com frenagem regenerativa e um pequeno display no painel para monitoramento do BMS (Battery Management System).

A autonomia é estimada em cerca de 90 quilômetros — marca dimensionada para passeios e deslocamentos urbanos, sem a pretensão de transformá-lo em um veículo de longa distância.

Concluída em outubro de 2024, a conversão custou aproximadamente R$ 90 mil (entre kit e mão de obra). Desde então, o Land Rover roda diariamente na cidade com manutenção mínima relatada até o momento. O modelo serviu como prova de conceito para a Kraft Berg, que agora aplica o aprendizado no desenvolvimento de novos projetos, como um buggy elétrico e um Fiat 600.

Ficha Técnica — Land Rover Series I 1956 Elétrico

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