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O Feitiço de um veículo!

Por Rafael Almeida e Mileide Mossmann

Conhecer lugares e viajar é muito bom, mas chegar a locais inacessíveis é ainda melhor, pois quem não gosta de conhecer uma natureza um pouco mais ‘selvagem’? Infelizmente muitos destes lugares você precisa de um veículo com tração nas quatro rodas para chegar, como nós nunca tivemos esta oportunidade, perdíamos o passeio ou ficávamos restritos a alugar um transporte adequado. Decidimos então comprar um carro com esta característica; mas qual? Após muitas pesquisas sobre veículos e viagens vimos um carro 4×4 num site de um casal que estava viajando pelo mundo, e ali tivemos a oportunidade de resgatar um sonho de infância (do Rafael), o desejo de ter um ‘jipão’ com uma escadinha atrás. Era assim que definíamos quando criança, pois nessa época não sabia nem o nome deste carro e muito menos que era da Land Rover. Naquele site de viagens do casal, trazia praticamente tudo que queríamos; viagens, aventuras, natureza selvagem… E tudo isso com o modelo 4×4 dos sonhos, todo preparado para este propósito.

Neste cenário definimos então que o icônico Defender era o que procurávamos, e começamos a buscá-lo de forma intensa em diversos sites de compra na internet. Não olhávamos mais nenhuma outra marca e nem modelo, e esta saga de busca seguiu por três meses, onde chegamos a ir até o estado de São Paulo em algumas tentativas frustradas de compra.

Foi em um sábado de manhã, olhando despretensiosamente a internet, que encontramos um anúncio de venda publicado com menos de quarenta minutos daquele momento, e instantaneamente entramos em contato, porém para nossa surpresa já tinha uma pessoa interessada antes de nós. Depois muita torcida o vendedor entrou em contato no outro dia, domingo, dizendo que o negócio não havido dado certo, e que o carro estava à disposição. Diante disso, nos programamos e seguimos viagem por mais de 300 km, partindo de nossa casa, em Catalão-GO, até Anápolis-GO para conhecer e vistoriar a máquina ao longo daquela semana, mas sem criar muita expectativa devido à frustração já sofrida anteriormente. Chegamos ao local para conhecer o automóvel, e para nossa alegria, deu tudo certo no encontro. O carro era perfeito, tratava-se de um Defender 110, com a cor que desejávamos e mais todos os acessórios que tínhamos direito, como guincho, bagageiro, quebra-mato e principalmente a famosa escadinha na parte traseira – independente se sabíamos ou não pra que servia esta bendita escada, mas lá estava ela, como se fosse a cereja do bolo. Foi neste memorável dia, 04 de outubro de 2016, que compramos nosso primeiro Land Rover.

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No dia seguinte, após regularizar a documentação no DETRAN, voltamos para Catalão, e muitas surpresas desagradáveis foram aparecendo. Alguns exemplos eram; a temperatura do veiculo estava nas alturas, problemas de trepidação no volante e um símbolo amarelo acesso no painel, pois também nem sabíamos o que era bloqueio central (imaginem só), e tudo isso apenas na viagem de volta para casa. Mesmo com todos estes fatos desagradáveis, estávamos muito felizes. Era um veículo dos sonhos, onde todos na rua paravam o que estavam fazendo e olhavam para nós. Quem tem um Defender sabe do que estamos falando. Era possível ver que todos ao redor se sentiam inspirados em viagens ao ver o Defender, e comentavam conosco; “Aí SIM! Com este carro da para chegar em qualquer lugar” – era unânime. Orgulho maior que esse era impossível de encontrar.

Estava tudo certo no momento, com o Defender comprado, sonho realizado, família e amigos felizes com nossa conquista, até que veio a dúvida de onde fazer um verdadeiro test-drive. Para nossa sorte, as férias do trabalho estavam para acontecer dentro de duas semanas, com isso nos restou ir para um lugar bruto e que só podia ir de 4×4: JALAPÃO.

Os preparativos para a viagem começaram, limpamos todo o sistema de arrefecimento, tivemos que trocar o miolo da turbina, dois pneus novos comprados, pois os antigos eram de dar dó, alinhamos e balanceamos as rodas e o Defender estava pronto para encarar a aventura, mas os gastos começaram a assustar, sem falar em uma lista enorme de reparos que fomos notando ao longo do tempo. Para evitar mais gastos resolvemos tentar reduzir os custos da viagem ao máximo, e o foco era evitar hotéis e restaurantes, sendo que a vida de campista prevaleceu em nossa escolha. Os utensílios de camping foram comprados em lojas de R$ 1,99, tudo muito simples, mas também investimos em duas cadeiras, mesa e um fogareiro de marcas boas. E foi assim, com um bom espírito aventureiro, tralhas de camping e uma antiga barraquinha de chão caímos na estrada. A viagem foi fantástica, conhecemos boa parte do Jalapão, aonde vimos muita natureza selvagem ao nos meter em estradas fora do roteiro convencional. Nesta aventura também fizemos amizades com um casal que estava conhecendo o local, pessoal muito gente boa de São Paulo capital, e que nos chamou a atenção que eles tinham uma barraca especial, essas de colocar no teto do carro, e que armavam em 5 minutos, sem problemas com chuva e nem para encher colchões para dormir. Em resumo, na primeira noite acampada e debaixo de um pé d’água, e dormindo em um colchão de ar que precisava encher umas duas vezes até o dia raiar, nos demos conta dos benefícios de uma barraca de teto.

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Depois de ter conhecido o Jalapão, notamos que durante o trajeto muitos carros quebraram no caminho, mas nosso Defender seguiu firme e forte. Enfim, regressamos inteiros e salvos para nossa casa, e nos sentido com muita sorte, pois somente tivemos um pneu rasgado na estrada de volta, e foi justamente um dos pneus velhos que precisava ser trocado.

O sentimento de “quero mais” estava à flor da pele e tudo isso com menos de um mês de ter o Defender em nossas mãos. Passado por esta experiência no Jalapão, dúvidas foram surgindo sobre o que queríamos das nossas vidas. Foi incrível como o carro conseguiu mexer conosco. Começamos então a nos indagar se conseguiríamos fazer uma aventura longa, de um ou dois anos com este veículo, igual ao casal que tínhamos visto naquele site que comentamos no início desta história. Independentemente se queríamos realizar uma loucura dessas ou não, precisávamos testar mais o carro, saber se conseguiríamos ter este tipo de vida por muito tempo, ou seja, tínhamos que viajar mais, aumentar as noites acampadas e nos desafiar a investir tempo e recursos neste projeto. Resolvemos então comprar a barraca de teto, e isso teve um grande significado para nós, pois precisávamos diluir o alto custo daquele trambolho. Então de imediato nos metemos na estrada para testar nossos equipamentos em uma viagem mais distante, seguindo para o Sul do Brasil para conhecer as Serras Catarinenses, no mês de Janeiro de 2017.

A viagem para as Serras foi tranquila, com muitos acampamentos em locais maravilhosos que conhecemos, e depois desta etapa feita no sul do país naquele início de ano, o projeto de viajar de carro por algum canto do mundo estava cada vez mais interessante. Concluímos que o carro que era perfeito para chegar a qualquer lugar, e que nos sentíamos bem em estar dentro dele viajando, sem nos importar com velocidade ou até mesmo altura dos estacionamentos que conseguiríamos entrar (quem nunca passou por isso?). Além do mais, a barraca também nos proporcionou certo conforto para dormir e descansar.

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Logo depois de regressar da viagem ao sul do Brasil, tivemos que mudar de cidade devido ao trabalho, residindo agora na capital goiana. Mesmo morando dentro de uma cidade grande, seguimos com alguns passeios curtos nos feriados e finais de semana, sempre acampando com nosso carro, principalmente em regiões próximas, aproveitando para conhecer cada vez mais as redondezas.

Em julho de 2017 resolvemos fazer um trecho um pouco mais longo em nosso período de férias, que foi a charmosa Estrada Real. Os trajetos pretendidos eram o caminho dos diamantes e também o caminho velho (de Diamantina-MG até Paraty-RJ). Tínhamos vários focos em mente nestas viagens, pois além da ideia de fazer uma viagem mais barata acampando e diluindo o custo da barraca de teto, o principal foco era de sempre ter o desafio de se aprofundar cada vez mais nesta brincadeira de viajar com o Defender, tentando sanar de vez a dúvida que nos perseguia, que era de cair de cabeça ou não no projeto da viagem comentado. Desta vez criamos uma logomarca de uma expedição, colocamos adesivos nas portas e também tivemos a ideia de nos preparar mais. Baixamos mapas de trajetos da estrada real, planilhamos as rotas e queríamos fazer um tipo de móvel interno no carro, uma espécie de prateleira para colocar algumas caixas plásticas e organizar melhor as tralhas de camping. Para este móvel, nós realizamos muitas pesquisas na internet sobre campers e vimos que o Defender era o carro que mais tinha material disponível neste quesito, e sem falar que era um projeto interno mais fantástico que outro. Foram quase 1.000 km de estrada, sendo que 90% era trajeto por terra, e a prateleira que construímos já tinha se desfeito no primeiro dia de viagem. Foi cômico, pois algo que era para ser prático nos dificultou muito, e tivemos que amarrar com arame e elástico o móvel para não estragar nada. Enfim, depois de oito dias na estrada concluímos esta viagem, e finalmente tivemos a certeza que buscávamos, de que se fosse realizar uma viagem de longo prazo nós estávamos preparados e teríamos a capacidade de fazer, sem medo de lugares, pessoas ou eventuais problemas que poderíamos passar.

Parece brincadeira, mas ao ler todo o relato descrito acima, é possível observar que estávamos a todo o momento realizando estas viagens, acampando, descobrindo lugares novos sempre para nos preparar para uma decisão que seria inevitável. Estávamos nos conhecendo nesse meio off-road e de campismo, mas principalmente estávamos descobrindo nosso carro. Tudo era parte de um plano inconsciente para entender cada vez mais de mecânica, condução em diversos tipos de terrenos e clima, e também conhecendo um estilo de vida mais simples, sem muitas regalias.

Com este histórico de quase dois anos de férias de aventuras com o Defender, nós fomos confirmando a todo o momento que gostaríamos de fazer uma loucura de viajar por anos com nosso carro, e que com toda esta experiência a decisão final seria fácil, correto? Errado. Outras dúvidas vieram à tona, principalmente na parte do que seriam os pontos contrários de se tomar uma atitude de mudança de estilo de vida como essa. Tínhamos que mudar nossa vida completamente, sair de nossos trabalhos, fechar uma casa e guardar nossa mudança, mas será que estávamos prontos para isso? Como deixar o certo pelo duvidoso? Vamos viver com que dinheiro? Estávamos em bons momentos de nossas carreiras profissionais, morávamos em uma casa confortável, íamos a restaurantes e bares bacanas. Como deixar tudo isso para trás para viver dentro de um carro? Durante meses essas questões ficaram em nossas cabeças. Mas todo o dia que observávamos o Defender na garagem algo mexia conosco por dentro. Fomos descobrindo que a incerteza era algo que queríamos. Conhecer coisas novas, sair da rotina, buscar o novo, aprender mais e mais sobre caminhos, lugares e pessoas. Foi então que em outubro de 2017, tivemos o gatilho final para cair de cabeça nesta aventura; a nossa saúde. Alguns problemas de saúde apareceram (no Rafael). O nível de estresse elevado do trabalho e uma rotina massiva enviaram alguns sinais ao corpo, sendo este o aviso definitivo que faltava para a cravar a seguinte decisão; vamos cair no mundo com nosso Defender.

Na próxima edição vamos contar como foi o a comunicação com a família sobre essa mudança de vida, o planejamento geral (financeiro, rotas, nome do projeto e etc) e a construção do ‘Defender Home’, Agora com o nome de Brucutu!

Rafael e Mileide estão em uma expedição chamada ‘Land Roots – Raizes da terra’, viajando pelos extremos das Américas.

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