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YUNGAS ROAD, A ESTRADA DA MORTE

9.822 km percorridos, 922 litros de combustível, 25 dias de viagem, 4 meses de planejamento, 2 passageiros, 1 Land Rover Defender e 0 problema. Interessante como complexas operações matemáticas e também a mais rica das vivências podem ser reduzidas a poucos números. Esses, fundamentais, tanto no resumo quanto na organização de uma viagem

Por Eurípedes Neto

A nossa viagem, minha e da minha esposa, começou com dois objetivos. Conhecer a histórica Estrada da Morte boliviana e não voltar para casa pelo mesmo caminho. Assim, montamos um roteiro que nos encheu de boas surpresas e lindos cenários. Montanhas, campos, florestas, desertos e lagos nos acompanharam por uma rota que se iniciou em Brasília-DF, seguiu até Corumbá-MS, atravessou a Bolívia e retornou ao Brasil por terras Peruanas.

O planejamento foi exaustivo. Incluindo desde a definição dos pontos a serem visitados em cada cidade, listagem de oficinas, fornecedores de peças e finalmente o preparo do veículo. Manutenção preventiva de todos os itens vitais, vedação contra poeira e água, novos rebites, cabeamento de alimentação e instalação de acessórios foram uma parte da organização prévia.

Necessária ainda foi a esquematização de todos os documentos, trâmites e processos legais a que deveríamos nos submeter tanto na Bolívia quanto no Peru. Felizmente, não furamos um único dia do planejamento, tampouco nenhum dos seis novos pneus disponíveis.

Planejar é o ponto mais trabalhoso e importante da viagem. Nunca concordei tanto com a célebre frase: “Dispondo de oito horas para cortar uma árvore, tomaria seis amolando meu machado”. Grande parte do sucesso de uma expedição vincula-se ao trabalho feito antes de pegar a estrada. Serviço chato de se fazer, demorado, gastando horas para encontrar um procedimento alfandegário, ou uma indicação de oficina, mas com ele conseguimos tirar do dia a dia do passeio uma série de decisões que tomam muito tempo.

Pesquisamos sobre as condições das rotas, avaliamos os possíveis trajetos, onde dormir, pontos históricos por ordem de prioridade, checklist com itens de segurança e ferramentas; cercamo-nos das informações necessárias. Toda a realidade pode desfazer uma parte da estratégia, mas mesmo assim é possível cobrir grande variedade de situações. O inesperado, tão longe de casa, custa considerável soma de tempo e dinheiro.

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Chegamos em uma sexta-feira 13. A superstição não rege minha conduta, mas preferi não arriscar. Carretera Yungas, só amanhã.

A viagem de carro é mais exigente, porém é compensada pelo fato de se vivenciar em 100% do tempo a integralidade dos lugares por onde se passa. Chuva, neve, calor, buracos, poeira e pessoas. A experiência é sim infinitamente mais rica. A imersão é completa. Depois passamos meses digerindo todos esses pequenos encontros e acontecimentos que ficam às vezes perdidos em nossa memória e são reencontrados aos poucos.

Bolívia, destino polêmico. Estrada da Morte, ainda mais. Recebemos diversos avisos para não ir. Assaltos, policiais corruptos, asfalto em péssimo estado, intermináveis greves de caminhoneiros, bloqueio de cidades, postos sem combustível, notas falsas, era o que mais aparecia em nossas pesquisas. Todas as negativas partiram de pessoas que nunca estiveram no país, a negação se converteu em motivação. Os poucos que rodaram por lá de carro, foram peremptórios em apoiar a empreitada.

Fomos preparados para tudo isso: seguros, comida, tanque extra de diesel, remédios e canivetes para presente. Ainda não sabemos se por sorte ou porque não existem na proporção alardeada, não encontramos simplesmente nenhum desses percalços. Apenas um povo humilde e hospitaleiro, policiais educados, tempo aberto, cidades históricas, natureza e cultura ainda preservadas.

Com tudo organizado, partimos, rumo a Miranda-MS. A típica ansiedade que precede novas jornadas me fez passar a noite em claro. Após 1.256 km, o deslocamento mais longo da viagem, cansados, mas não mortos, nos recuperamos após uma noite de sono pesado. No outro dia partimos cedo para Corumbá-MS, 4 horas de burocracia nos aguardava para regularizar a entrada na Bolívia.

San José de Chiquitos, Santa Cruz de la Sierra, Sucre, Cochabamba, La Paz; 7 dias de viagem e 1.820 km depois de cruzar a fronteira nos permitiram uma ótima adaptação à altitude. Seguimos três regras básicas: folha de coca no canto da boca desde o primeiro dia, não esperar ter fome para comer, nem aguardar ter sede para beber. Assim foi possível alcançar La Paz sem sofrer do temido Soroche, o mal da altitude andino.

Chegamos em uma sexta-feira 13. A superstição não rege minha conduta, mas preferi não arriscar. Carretera Yungas, só amanhã. Aproveitamos para conhecer a cidade, edificada em geografia acidentada. Um vale formado pela conjunção de diversos picos da cordilheira dos Andes.

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Ocupação humana ímpar, que se multiplicou de forma orgânica, sobrepondo edificações à topografia dos montes circundantes em uma escala impressionante.

O trânsito é uma experiência à parte. Dirigir em La Paz é algo que se leva pra vida. Caso esqueça a pílula da paciência, vai odiar. Creio que no dia estava com o espírito bom, adorei. Nunca vi algo tão sem lei e funcionando sem incidente algum. Milhares de vans e táxis se confundem, furam sinais, param em fila dupla, avançam e freiam repentinamente. Com um pouco de ousadia e muito de respeito, pega-se o jeito. Tudo se resolve com buzinas, sinais de farol e avanços milimétricos. Sem ofensas ou gritaria, o trânsito vai se conformando como um organismo nas ruas.

Caminhamos pelo centro histórico. Visitar a Calle de las Brujas é obrigatório. Fetos de Llama, sapos secos, diferentes pedras, terra ensacada, ervas e condimentos. Os mais diversos itens para feitiçarias, curas e oblações estão disponíveis. Respeito é sempre bem-vindo, jamais tire foto sem autorização ou trate objetos e pessoas com ironia ou sarcasmo.

Fomos em busca de um alho específico que, dizem, espantam os maus espíritos. Obrigatório, para quem vai percorrer a Estrada da Morte, levar no bolso da calça. Como o resultado foi além do esperado, o mantenho como mais um patuá protetor do Defender. Um rápido bate papo nas agências de turismo, que vendem os pacotes de Downhill, ajuda a confirmar as condições da estrada.

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Manter o motor sempre em funcionamento, sem desligar o carro ao sair para fotos e tomar muito cuidado para não apagar nas saídas é um comportamento preventivo essencial.

Sábado, agora sim, dia 14, saímos às 9 horas e levamos 3 horas da porta do hotel até a cancela que controla o acesso da subida. Sair mais cedo é recomendável, mas não obrigatório. Tiramos o dia para fazer tudo com muita tranquilidade, fotografar, filmar e parar onde quiséssemos. O trecho entre La Paz e Coroico é lindo, um novo trajeto pavimentado e seguro que retirou todo o fluxo da antiga rota, agora atração turística. Cruza-se a cordilheira, e desce-se a floresta amazônica boliviana.

Uma brusca transição de clima, vegetação e topografia que vai da pista congelada a 4605 metros de altitude até uma úmida floresta a 1085 metros. São cerca de 90 km até o ponto mais baixo da estrada. Atrasados pelo trânsito da cidade, pedágio congestionado e um sinuoso e movimentado caminho, chegamos com céu aberto ao ponto inicial de um momento tão esperado.

Durante toda a preparação que fiz não encontrei nenhuma descrição acalentadora a respeito dessa travessia. Todos os relatos são temerosos e mostram com muita fidelidade os perigos desse percurso. Isso me ajudou a pensar em três medidas primordiais para minimizar incidentes. A primeira, data da viagem, a segunda, sentido do trajeto e por fim o cuidado com o funcionamento do motor.

Escolher a data correta é de suma importância. A estação mais seca, julho, foi a nossa opção. Nessa época o céu é quase sempre aberto e as chuvas são mais espaçadas. Vale lembrar que o clima na Estrada da Morte é amazônico, completamente diferente da baixa umidade das regiões do altiplano. A estrada foi construída em um corte na montanha e as estações chuvosas trazem, além da pista escorregadia, desagregação do solo e desmoronamentos. Há também a espessa neblina que toma conta de todo o vale, impedindo tanto a visibilidade do motorista quanto os registros fotográficos.

O sentido do trajeto em subida também ajuda a diminuir os riscos. Lá, a mão é inglesa, em caso de cruzamento com outro veículo, quem sobe fica parado ao lado do paredão e quem desce passa rente ao penhasco. Essa escolha foi também pautada pelos freios. O carro não chegaria lá se não estivesse com todas as revisões em dia, mas, vai que, naquele dia, ele resolve perder o freio, ou, ao usá-los demais, acabe perdendo a capacidade de frenagem. Uma situação arriscadíssima nesse terreno tão íngreme.

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Manter o motor sempre em funcionamento, sem desligar o carro ao sair para fotos e tomar muito cuidado para não apagar nas saídas é um comportamento preventivo essencial. A partida é sempre o ponto crítico na maioria das máquinas, e aqui, mais uma vez, é melhor não arriscar. Se, por ventura, o carro apagar e não der partida novamente, o resgate acarreta uma logística complicada e perigosa ao se manobrar e trabalhar próximo aos penhascos.

Com tudo isso em mente, fomos recebidos pelo menino Ismael, que nos cobrou 2 bolivianos para levantar a cancela e autorizar a passagem. O começo é muito tranquilo e plano, estamos na parte mais baixa e ainda conseguindo ver o estreito curso d’água que conforma o vale. No entanto, a cada metro que seguimos vamos encontrando tudo o que estava colocado nos relatos.

Ciclistas (que até hoje morrem fazendo Downhill), penhascos quilométricos, solo instável, curvas tão fechadas que não nos deixa ver quem se aproxima, pontos com risco real de queda sem guard-rail, trechos de pista com menos de 3 metros de largura. O trajeto foi percorrido tão devagar que demoramos mais de 2 horas em um trecho de 40 km. Mas incluem-se nesse tempo inúmeras pausas para fotografia e contemplação.

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As cruzes que encontramos no caminho nos lembram da real periculosidade da estrada à época em que era utilizada como rota principal, onde caminhões e ônibus dividiam espaço no mesmo trecho. Um cemitério improvisado para relembrar os mortos não resgatados, que vai marcando as curvas sombrias e trechos apertados, onde naturalmente ocorriam conflitos entre quem sobe e quem desce.

Acontece que a estrada não é só terror e morte. Não acredito que ela teria toda essa fama devido exclusivamente à busca por adrenalina. A paisagem é das mais belas. Normalmente as regiões de mata amazônica são fechadas e a relação do olhar com o horizonte e a vegetação fica muito limitada. Essa estrada é um dos poucos lugares que propiciam o contato tão próximo com a magnitude desse ecossistema.

O fato de percorrer um corte na topografia da montanha abre o horizonte. Lá temos, de um lado, um íngreme paredão coberto de vegetação, úmido, com uma infinidade de pteridófitas, bromélias, orquídeas e diversas outras epífitas alimentadas por cachoeiras que deságuam no chão batido e continuam descendo até o final do vale; do outro, o penhasco que nos possibilita contemplar toda a cordilheira, ocupada por essa densa mata que, como um manto verde, estende-se ocupando inteiramente a perspectiva.

Percorrer a Estrada da Morte é um passeio extraordinário. O local está carregado de história, da força do homem e da beleza do universo. Conformação muito específica da humanidade. Um cenário que dificilmente se encontra em outro lugar.

Existe sim o risco, como tudo é arriscado. Uma parcela dos acontecimentos sempre está fora do nosso controle. A aventura, no seu legítimo sentido, não era nossa busca, tampouco imprevistos e decisões inconsequentes. Atravessar a Carretera Yungas sempre pareceu uma grande irresponsabilidade. Com cautela e planejamento, não é.

Quanto a riscos e perigos, ela foi menos do que imaginávamos. Em termos de beleza foi superior a qualquer descrição. Mas isso só é possível descobrir lá, pessoalmente, você e a estrada.

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