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Series 1, uma paixão verdadeira

Por Washington Pires

Esta semana fui surpreendido com uma triste notícia, Sr Antonio Ferilles, antigo dono do Series 52 que acabei de restaurar havia falecido. Logo que terminei a restauração, vinha me lembrando de quando comprei o Series e fiz a promessa de mostrá-lo depois de pronto mas havia perdido seu contato, mudou-se do Rio de Janeiro e, há poucos dias, pelo facebook acabei encontrando seu filho, o Marcelo Ferilles que, após algumas conversas, me ajudou a conhecer mais sobre o Sr Ferilles e um pouco de sua história com o Series 1.

Descobri que aquele senhor simples e gentil, foi torneiro mecânico, trabalhou na antiga revista O Cruzeiro, morava em Marechal Hermes no subúrbio do Rio de Janeiro, formado em arquitetura e um exímio desenhista era também um completo apaixonado pelo Series 1, mas sobre essa paixão eu já havia notado no dia em que fui buscar o Series na sua casa, Sr. Antonio estava mesmo chateado em vender o carro, no fundo sabia que não conseguiria realizar seu grande sonho de um dia reformar o seu velho Land Rover.

Na sua garagem havia um verdadeiro santuário da LR com várias miniaturas (seu justo apego era grande, por isso só fiquei com uma), muitos livros, revistas e gravuras na parede, tudo isso em meio a uma enorme confusão de peças e ferramentas.

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Seu filho Marcelo Ferilles, contou que seu pai era aficionado pelo Series, e brincou: depois de sua mãe, era só o Land que importava! Lembrou que na sua infância, lá pelo final dos anos 70, seu pai não deixava ninguém chegar perto do carro e as saídas eram sempre destinadas a eventos especiais como as pescarias com os amigos na Restinga de Marambaia, adaptou até um suporte para as levar as varas, um destes amigos também tinha um Series 1, com quem trocava peças e longas conversas sobre os Lands.

Marcelo e seu irmão percebiam esta paixão pelo carro e o sonho de um dia poder restaurá-lo e tentaram várias vezes que Sr Antonio aceitasse mandar carta para o “Lata Velha” do Luciano Huck, mas ele sempre relutava, não estava errado, sabia que se fosse escolhido os “restauradores” não manteriam a originalidade e fatalmente o transformariam em um carro despersonalizado, cheio de leds e adereços improvisados. Um dia acabou cedendo, se inscreveu, tirou fotos e tudo, por sorte a carta não foi escolhida.

Marcelo contou que tinha uns 13 anos quando o pai parou de pescar com o Land e o encostou no quintal de casa, no tempo mesmo, e sobre isso eu até questionei o Sr. Antonio se, estando no tempo todos estes anos, não teria sido melhor deixá-lo dentro da garagem e ele, sabiamente me explicou que no tempo, depois da chuva, certamente o sol secaria tudo não dando chances de enferrujar, de fato, estava bem conservado neste aspecto, até porque a maior parte da lataria é alumínio. Marcelo, hoje militar reformado da Marinha, cresceu vendo o Series parado no quintal sem muro, e sem entender porque o pai idolatrava um carro velho que não andava mais para lado nenhum.

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Sr. Ferilles gostava mesmo era de mexer no seu Land, desmontava algumas peças, tinha muitas sobressalentes, retirou até o para-lamas pra facilitar o trabalho e às vezes era pego só admirando mesmo. Um dia resolveram vender a casa e se mudaram pra cidade de São Pedro da Aldeia, perto de Cabo Frio, o Sr. Ferilles teve a certeza de que não conseguiria mais realizar o sonho de reformar o velho Landy, a casa pra onde iriam não tinha garagem, levar o carro seria difícil e agora teria só a pescaria pra se distrair, mais perto do mar.

Tomou então a difícil decisão de vendê-lo e, quando o Sr Antonio se despediu do seu velho companheiro, o muro anteriormente construído teve um pedaço quebrado para que o Serie pudesse sair de lá.

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O tempo passou para o Sr Antonio também, e seu coração um dia resolveu parar, bem ao lado de sua esposa, levando com ele os momentos felizes vividos com sua família, seu trabalho, seus amigos e, principalmente, com seu velho Landy.

Momentos, são eles que ficam grudados na gente, são nossas aventuras e desventuras que vão nos acompanhar pra sempre e depois também, isso falei pro Marcelo.

Após a notícia de seu falecimento me questiono se tive a sorte de encontrar o Sr. Ferilles e seu querido Landy ou se foi este Landy que me encontrou.

Poder realizar o seu sonho de restaurar o velho e admirado companheiro, foi pra mim uma experiência única que me trouxe, e vai trazer certamente, muitos momentos felizes, principalmente as amizades. Tenho também a certeza que o Sr. Ferilles, mesmo sem ter visto o velho Landy restaurado, deve estar bem feliz em algum lugar.

Se apaixonar e restaurar um LR Series vai muito além de um amor por carros ou um hobby para passar o tempo, é herdar afetos e continuar histórias interrompidas e no painel deste Series 1 vai uma plaquinha com o nome do Sr. Ferilles, uma pequena homenagem pra lembrar um grande entusiasta.

“Vida Longa aos Series”

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