Entrevistamos Murilo Marques Galvão de Queiroz que criou o Manual do Quebra Galho, um dos maiores projetos colaborativos de DIY nos Land Rover aqui no Brasil.
Por Eduardo Rocha | Fotos Murilo Galvão
Murilo, nos conte um pouco sobre você e como veio parar nesse mundo Land Rover.
Não sei se tudo começou assim, mas creio haver nascido meio aventureiro. Aos quatorze anos já pegava umas caronas nos saudosos Willys e fazia umas pequenas “expedições” pelo Planalto Central, em torno de Brasília, antes mesmo da inauguração da Capital. Aos dezenove, já estava na Marinha de Guerra onde fiz toda uma carreira e onde, na maior parte do tempo, estive embarcado em seus navios. Daí, ao me aposentar e chagar ao mundo LR foi um pulo : certo dia, li em um jornal que uma concessionária LR, em Petrópolis, RJ, ofereceria um curso básico de off road. Fiz o curso ainda a bordo de uma Mit L-200 e , dois meses depois, lá estava eu na festa dos 50 Anos da LR, em Visconde de Mauá, RJ, com meu primeiro Defender, um 110 CSW, verde e branco, 1997.
E como foi a decisão de criar o MQG? Quando foi isso?
Naquela época, ainda pré Land Rover, criei um site chamado “BRAZIL com S” onde buscava cobrir tudo que fosse off road. Como frequentava algumas listas no Yahoo, como a JIPENET, Clube Land Rover, LROA e etc, comecei a coletar no site informações sobre mecânica, viagens, dicas, manutenção, etc, de diversas marcas e modelos 4×4. Já por volta do ano 2000, após uma passagem de vários anos pela iniciativa privada, resolvi colocar o carro na estrada. Foram praticamente dois anos seguidos com poucos períodos curtos passados em casa. Tive a felicidade de percorrer quase tudo, de Ushuaia aos Lençóis Maranhenses. Foi quando percebi que aquelas informações (sobre os Defender) que estavam no site precisavam estar mais “a mão” durante as viagens. Foi só separar os dados e junta-los no embrião do “Manual Quebra Galho – Dicas Mecânicas, volume I”. Os demais volumes vieram em sequência, como frutos das viagens feitas. Vale lembrar, também foi desta época a edição e venda de dois livros, o “Off Road, Arte sem Mistérios” e do “Manual do Zequinha Mirim”, vendidos durante alguns anos, pela Internet.
Você começou a empreitada sozinho ou conseguiu alguns colaboradores logo de início?
Na verdade, nunca fiz nada sozinho, dado que a maioria dos textos incluídos no MQG não são de minha autoria. Meu trabalho sempre foi o de coletar, editar , montar e distribuir o manual. Vale ressaltar que, por muitos anos, ao final de cada volume, havia uma lista dos “colaboradores”. Depois, com o manual crescendo demais (o volume I possui mais de 700 páginas), o trabalho foi ficando muito lento e pesado e, por isto, resolvi não mais coletar e registrar o nome dos autores de cada contribuição. A partir de então, ficaram só as referências e agradecimentos a cada uma das listas, grupos, clubes, fóruns, e etc, de onde vinham as informações.
A sua pesquisa veio somente da prática, do dia a dia, ou fez bastante pesquisa nos fóruns e etc?
Vieram, em sua grande maioria, das listas, grupos, fóruns, clubes e etc. É verdade que também foram incluídas muitas informações provenientes de pesquisas na Internet, as mesmas que levaram à confecção dos dois livros já citados. Da prática mesmo, talvez o mais importante tenha sido a montagem da “Tabela de Manutenção Preventiva para Viagens e Expedições” que foi feita a partir de experiência própria e de informações coletadas de tantos outros landeiros. Muito importante também foi a montagem da tabela “Tempo de Vida Útil de Componentes”, fundamental para a montagem da manutenção preventiva. Esta coleta de dados começou a ficar prejudicada quando os carros passaram a envelhecer e trocaram de mãos.
Como foi a divulgação no meio Land Rover? Nos fóruns? Como repercutiu?
A divulgação sempre ocorreu dentro da listas e fóruns. Eu preparava uma nova edição (normalmente a cada 30 ou 40 dias), avisava a todos e a distribuição acontecia. A aceitação sempre foi excelente e dezenas ou centenas de exemplares eram distribuídos a cada edição. Um fato “pitoresco”, se assim hoje posso considerar, foram as “brigas” ocorridas quando avisei que os nomes dos colaboradores seriam excluídos, ficando só as referências às listas ou fóruns. Um participante das listas, por sinal, um dos mais ativos, não gostou de ter seu nome apagado e aí…
Ao final, tudo acabou bem, mas a verdade é que foram momentos agitados.
Os colaboradores são 100% brasileiros, ou tem gente de outros países?
Naquela época, do Clube Land Rover e do LROA, se não me engano, havia um ou dois portugueses que participavam das discussões e certamente deram alguma colaboração. Não me recordo de haver nehum sul-americano, como ocorre hoje no grupo “Amigos Land Rover”, do Facebook.
Quantas pessoas já contribuiram com informação nesse tempo?
Posso fazer uma estimativa pouco precisa de que foram bem mais que 50 colaboradores.
Quantas versões até hoje?
Antes de responder, creio ser importante contar o quase “final” da história. Alguns anos passados, com o advento do Google e dos seus “grupos”, aquelas “listas” de antes perderam a vitalidade, pela forma como a comunicação passou a ser feita, não mais por meio de e-mails. Os grupos no Google permitiram uma maior continuidade e concatenação das discussões, a possibilidade de inclusão de vídeos, melhores formas de arquivamento, etc. Alguém, então, criou o grupo “Amigos Land Rover”, o que me parece ser hoje o maior e mais ativo dos existentes. Se, por um lado, tudo evoluiu, como comentei antes, para mim, o “coletor” de informações do MQG, tudo ficou mais difícil, no sentido de como coletar, agrupar por tópicos para então editar e colocar no manual. O fato é que ‘joguei a toalha”, pelo aumento excessivo de trabalho, horas dispendidas e, principalmente, pelo fato de que, na verdade, os assuntos eram repetições do que já havia no manual. Só lamentei a perda das ótimas fotos que muitas vezes acompanhavam as discussões e que enriqueciam muito o manual. Fiz uma última edição e “fechei a editora” ao final de 2015. Isto não quis dizer que as distribuições não tenham continuado até hoje. Ainda recebo vários pedidos para envio do MQG, normalmente de quem está comprando um LR e anda pesquisando no Forum Brasil 4×4. A grande verdade é que hoje, acredito, a maioria dos proprietários de Defender já não conheçe o manual. Afinal, fazem parte da quase décima geração de landeiros e nunca receberam aquela “famosa” mensagem : “Saiu a edição … do volume xxx do MQG. Interessados podem solicitá-lo por email”. Respondendo agora à pergunta : foram 78 edições do “Dicas Mecânicas”, 14 edições do “Dicas de Viagens – Brasil”, 15 do “Dicas de Viagens – Américas” e 75 do “Páginas Amarelas”.
Alguma solução engraçada ou mirabolante que tenha sido sugerida ou até publicada por um colaborador?
Que eu me recorde, não. As sugestões eram para colocar o manual em algum site onde pudesse ser baixado pelos interessados sem necessidade do pedido a mim. Sempre fui contra isto pois acreditava que perderia o controle sobre as atualizações e paradeiro dos volumes e, principalmente, porque acabaria com o canal de comunicação que eu mantinha com os interessados no material, o que me ajudava em muito a coletar informações e motivá-los a colaborar.
Com essa conectividade toda de hoje, com as pessoas usando mais os seus smartphones do que do que seus próprios computadores, você acha que o futuro do MQG poderia ser um aplicativo?
Na verdade, creio que para o propósito do manual, sua forma atual atende perfeitamente bem, seja através de um pen-drive, de um PC ou notebook. Entretanto, tudo é possível com engenho e arte. Para transformá-lo em um aplicativo, me parece que, pelo menos , teríamos que introduzir muitos vídeos do ramo “faça-você-mesmo”. Entendo que seria outro trabalho gigantesco, com a colaboração de muitos proprietários. No caso das “Dicas de viagens”, seria um aplicativo mais interessante. Por outro lado, hoje encontramos todas as informações em sites pela Internet, de modo que não me parece que venha a ser um trabalho inovador. O volume “Páginas Amarelas” , no máximo, poderia ser atualizado na forma em que está ou transformado em um banco de dados. Recentemente foi lançado um aplicativo com os propósitos imaginados em sua pergunta; pelo que tenho acompanhado, não evoluiu, como sempre porque necessita de muitas contribuições , o que não ocorre se quem executa o trabalho não se dedica totalmente a ele e não realiza uma constante de motivação dos landeiros no sentido de contribuírem para o aplicativo.