Naquela época, por volta de 1985, veio o marco inicial, aquele que me tirou da simples admiração e me levou ao engajamento, a compra de um livro sobre o então evento máximo do off road internacional, o Camel Trophy, patrocinado pela R. J. Reynolds, fabricante dos cigarros Camel e pela Land Rover com o objetivo de fixar as marcas e dar-lhes projeção mundial.
Uma das equipes brasileiras formada por Tito Rosemberg e Carlos Probst publicou um livro-diário, na época, relatando em minúcias sua participação numa das edições do evento e a leitura da obra me despertou a determinação, criou a paixão pelos detalhes construtivos e pela pesquisa técnica, não somente da prova em si, mas de todos os elementos envolvidos, os veículos, os equipamentos off road, dispositivos, acessórios e ferramentas usados pelos pilotos e navegadores, as soluções e improvisos usados na transposição dos obstáculos supostamente intransponíveis. Era fascinante!
Por que não reproduzir tudo aquilo, por que não adaptar, por que não pesquisar, projetar, se interar de tudo que o universo off road oferecia na época e por que não desenvolver um verdadeiro fora de estrada munido de técnica e tecnologia, aqui no Brasil?
Muito tempo se passou antes que a determinação gerasse algo tangível e que a maior parte das questões pudesse ser respondida. Era um período de franca evolução na tecnologia dos jipes e, sobretudo, do surgimento da febre do off road, impulsionada por pioneiros obstinados, a partir do início dos anos 90.
Essas questões geraram atitudes, realizações modestas a princípio, como é na vida dos jipeiros. Assinatura da revista especializada da época, a 4×4 & Pick Up, o ícone brasileiro do off road na segunda metade dos anos 80, a obtenção de material e reportagens sobre o fora de estrada internacional, filmes, fitas e mais, muito mais material sobre o Camel Trophy, cujas edições anuais ao redor do mundo o tornavam o ponto de convergência sobre tudo o que se relacionasse ao fora de estrada. Tudo se mantinha, entretanto, no nível mais teórico que prático, inclusive as minhas grandes paixões, que persistem até hoje, o inglês Land Rover Defender e o nosso extinto Engesa 4, o primeiro um sonho distante na época devido ao país não estar aberto à importação, já o segundo uma paixão que surgiu com o lançamento da Engesa, em 1985, do primeiro jipe genuinamente nacional, projetado e construído aqui, na nossa terra, para as nossas condições diversificadas de relevo e geografia (objeto de seguidas e entusiasmadas reportagens na revista 4×4 & Pick Up). Não tinha ainda o meu primeiro jipe, o que somente ocorreu em 1992, com a compra de um Willys 72, verde, uma pequena aventura, um “gostinho” que logo passou. Mas haviam outros objetivos.
Já bastante engajado no meio off-road e com a abertura da importação de veículos, os primeiros importados 4×4 como Lada Niva, Land Rover e Suzuki entre outras marcas, invadiram o cenário do fora de estrada e consequentemente surgiu a chance de desenvolver e apresentar ao mercado, acessórios e equipamentos adequados à prática do fora de estrada, para esses veículos.
Chegara, portanto, o momento. Adquirir o meu primeiro jipe com tecnologia de ponta, o sonhado Engesa 4 e depois experimentar e sentir o potencial das outras marcas emergentes como Suzuki e Ford entre outras e por fim o também sonhado Land Rover, escolhido a “dedo”, o Discovery I, transformado em réplica única, brasileira, fiel da versão Camel Trophy 1996.
Havia agora todas as condições para o surgimento da Todo Terreno Equipamentos Especiais, fundada com o objetivo precípuo de desenvolver e fabricar acessórios e equipamentos destinados unicamente ao off road.
Era hora de arregaçar as mangas para desenvolver produtos de extrema qualidade, buscar métodos de trabalho mais eficientes, os melhores fornecedores de materiais e serviços, e acima de tudo, a inovação.
E é o que faço há quase 19 anos, mantendo meus objetivos e minhas paixões, o off road, os 4×4, o desenvolvimento de produtos para off road e o Camel Trophy, paixão sobre a qual vou falar aqui.
Nota do Editor:
Murilo é, seguramente, o maior especialista no Brasil, na história do Camel Trophy. E dispõe de um enorme acervo registrado em seu blog.