Red Wharf Bay, onde a história da Land Rover começou
Por Washington Pires
Essa coisa que a Land Rover tem algum componente que vicia eu já sabia, porque fui contaminado há uns 15 anos atrás quando comprei meu primeiro Defender 110, mas que eu iria parar na Inglaterra num encontro de Land Rover Series 1, isso realmente eu não sonhava.
Essa paixão com os Lands aumentou participando das Listas da LROA(Land Rover Owners Association) e do Club Land Rover, os mais antigos vão lembrar, eram duas listas de e-mails ótimas, somente sobre Land Rover. Participei de vários encontros com a turma, as trilhas e passeios eram combinados sempre pelas listas de e-mail e tinha muita gente fera por lá como o Negraes, Clemente, Murilo Galvão, Luiz Fraga e outros que davam verdadeiras aulas sobre os nossos LRs, tenho salvo todos esses emails até hoje.
Um belo dia, em 2011, vendo um anúncio que foi publicado na lista da LROA, estava lá um anúncio de um Series 1 1952, vi as fotos mas não gostei muito, ainda sem experiência com carros antigos, deixei passar, não é que o destino, uns três anos depois, me colocou de frente com este Series novamente, procurando mensagens antigas sobre um determinado assunto sobre Defender, me deparei com o antigo email com o anúncio do Series 52 e resolvi ligar para o número e ainda estava a venda, depois de negociar com um cara que não era o dono do Series, só um amigo tentando ajudar, perguntei se haveria negociação e fui para o Rio de Janeiro ver o Series, confesso que tive a mesma impressão ruim das fotos mas, reparando melhor vi que estava bem completo, com todas as peças e acessórios, motor, caixa, tudo no lugar, só bastante desgastado do tempo, com a pintura já chegando no alumínio e a mais de 20 anos parado, porem bem conservado pelo dono o Sr. Antonio, que já o possui por mais de 30 anos, gostava de pescar em Mangaratiba com o Séries.
Minha primeira lição com o Sr. Antonio um, apaixonado por Land Rover (ele tinha na sua garagem um santuário com miniaturas e posters de LR) foi: nunca deixe guardado por vários anos um carro na garagem, se você deixar no tempo ele não enferruja. Como assim? perguntei , ai aquele torneiro mecânico aposentado da Revista O Cruzeiro pacientemente me explicou, do alto dos seus quase 80 anos: “Se o Land estivesse dentro da garagem já estaria todo podre e estando do lado de fora ele molha com a chuva mas seca bem rápido com o sol de rachar, aqui do Rio de Janeiro” de fato estava bem inteiro com poucos pontos de ferrugem.
Negócio fechado, lá fui eu feliz da vida pra buscar meu primeiro Series 1.
Contratei a prancha e cheguei cedo no dia, pra minha primeira surpresa o Sr. Antonio tinha uma garagem lotada de peças que ajudaram bastante na reforma e ainda me garantiu peças sobressalentes e a segunda surpresa foi na hora de tirar o Land do lugar, aconteceu que, quando ele o colocou na frente da sua casa, não havia muro, construído anos depois, ai tivemos que quebrar um pedaço do muro pra tirar o Land , operação de remoção feita, volta o feliz proprietário de um Series 1 1952 pra sua cidade. Já ia esquecendo, antes de sair tentei comprar as miniaturas dele, mas a esposa, percebendo a tristeza do Sr. Antonio em desfazer do carro me pediu pra deixar pra lá , pois seriam as únicas lembranças dele, quase desisti do negócio.
Começava ai a paixão pelos Series 1, comecei a pesquisar tudo sobre o assunto na Internet, principalmente aqui no Brasil, atrás de pessoas que já haviam feito restaurações, suas experiências e como seria essa empreitada.
Numa dessas pesquisas me deparei com o Sr. Dave Hanson da Land Rover Register, que edita Revista Full Grille, é uma associação de proprietários de Land Series 1 somente dos anos de 48 a 53, ligada ao LRSOC(land Rover Series One Club), ambos na Inglaterra.
Nos primeiros contatos por email com o Dave, logo ele se interessou pela história e em me ajudar com a restauração do meu Landy, assim que eles chamam carinhosamente esses modelos Series, e me ajudou bastante com dicas importantes, e indicando lojas e sites para a compra de peças e ainda me presenteava com suas histórias e experiências com os Séries, como num programa de TV que ele participou, sendo engenheiro mecânico, foi chamado para mostrar como seria desmontar todo um Séries em apenas 2 horas.
O Dave ficou bastante curioso quanto a forma que encontrei o meu Landy , a retirada do carro da casa onde estava, quebrando o muro, pediu fotos e relatos e publicou na Revista Full Grille numa de suas edições, lá eles chamam isso de “barn-find”, que são achados de Lands abandonados ou largados em galpões e fazendas .
Daí para frente ficamos amigos, sempre trocando em-mails e falando sobre nossos Series e o andamento da minha restauração, o Dave também estava terminando a restauração de um Series Modelo Minerva, esta versão foi entre 52 e 53 que foi produzida pela Land Rover e enviada ao exercito da Bélgica na época, sendo hoje bem raros.
Ano passado, numa dessas conversas por email, disse-me Dave que em 2018, quando a Land Rover faria 70 anos, aconteceria um evento na Inglaterra, mais precisamente em Anglesey uma ilha situada ao norte no pais de Gales , local chamado Red Wharf Bay, onde a história da Land Rover começou com o Maurice Wilks, na época um dos engenheiros da Rover, que tinha uma propriedade naquela Baia onde passava finais de semana com a família na época, ele possuia um Jeep Willys mas acreditava que sua empresa poderia produzir um veículo fora de estrada bem melhor e rabiscou nas areias de Red Wharfer Bay os primeiros esboços do que viria ser o Series 1, que depois teve sua primeira versão apresentada no Salão de Amsterdã em 1948 , daí começa a história da Land Rover que e até hoje fascina e empolga milhares de seguidores por todo o planeta.
Pensei bem no assunto e falei, vou me programar para este evento, embarquei para Portugal , aproveitei para visitar minha irmã que foi morar nas terras além mar e peguei um vôo pra Liverpool na Inglaterra, na data marcada.
Chegando a Liverpool ,antes já se sobrevoa próximo a ilha de Anglesey e já se pode notar os enormes bancos de areia, característicos daquela região, uma paisagem plana e bem verde, com varias fazendas e pastagens, principalmente de ovelhas.




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O Dave já havia me falado que o clima seria bom, estávamos em pleno verão na Europa com temperaturas altas, mas na Inglaterra é normal a chuva e o tempo nublado direto, até ele estava empolgado com a possibilidade de dias ensolarados.
E foi o que ocorreu, os três dias que passamos em Anglesey foram de sol intenso e dias bem atípicos, sem aquele sisudo “fog inglês” .
Pegamos um caro alugado em Liverpool, a vontade era ficar lá, pois a cidade é muito simpática com todo aquele apelo aos Beatles, grandes construções e castelos antigos muito bem preservados, sem falar nos Pubs pra tomar uma cerveja bem gelada com o famoso “Fish and Ships”.
Mas havia uma coisa que falava mais alto naquele momento, o esperado encontro em Anglesey a que deram o nome de “Back to the Bay” .
Chegando próximo a Anglesey, pelas excelentes rodovias da Inglaterra, tentando me acostumar com o lado direito da direção e do sentido oposto nas estradas, já avistávamos pelo caminho vários Séries seguindo em direção à Anglesey, algumas rebocadas outras rodando mesmo, sinalizando que o encontro prometia ser bem legal.
Atravessamos uma belíssima ponte estaiada, a Mersey Gateway, em seguida começamos a perceber que as placas na estrada, além do inglês, trazia uma língua bem estranha, que não conseguíamos nem ler direito, mas depois descobrimos porquê. Procurando o local onde íamos ficar, nos deparamos com outra marcante característica, as estreitas estradas do interior da Inglaterra, aquilo já é complicado porque já temos que acostumar o cérebro a fazer tudo na direção do lado oposto ao nosso, principalmente nas rotatórias e ainda ter que passar naquelas estradinhas é bem uma aventura.
Depois soubemos que as placas escritas em outra língua é por causa dos Welsh que são povos antepassados que habitavam a região e ainda com muita influência e descendentes no local e, por razões políticas são obrigados a escrever tudo nas duas línguas, são interessantes palavras com 15 ou mais letras, repetidas consoantes e dificílimas de se ler e principalmente falar. Já as estradas estreitas são por conta da preservação das construções e estradas que na época eram para charretes e cavalos não pra estes carrões de hoje.
Pra achar o endereço de onde íamos ficar foi outra peleja, placas em Welsh e a dificuldade de encontrar pessoas pra perguntar, você anda quilômetros sem ver ninguém por ali.
Finalmente encontramos, um chalé muito simpático, dentro de uma fazenda onde o Sr. John, sua esposa Sara e “Boss” um Setter inglês, eram os donos do local e com um Land Defender 110 com caçamba, bem clássico, verde com teto branco, bem antigo também e que fica a serviço da fazenda, muito simpáticos nos apresentaram o local e contaram histórias sobre os Welsh, mas a ansiedade era grande de ir logo para o local do encontro.
Colocamos no GPS o local marcado, um grande Parque de Exposições de Agro Pecuária, numa área plana com um pavilhão enorme nos fundos, onde seria o jantar no sábado a noite. Chegando ao local, com vários Series estacionados, tivemos que deixar nosso carro num estacionamento para os visitantes.
Logo na entrada tinha uma tenda da Montadora Land Rover, com os últimos modelos estacionados, Range Rovers, Velar, Discoverys, todos estalando de novos, mas os olhos não paravam de procurar os Séries que estavam espalhados por ali. Próximo dali, já tinha o local para fazer o chek in dos participantes, como estava sem meu Serie, expliquei que pegaria meu Kit e levaria para o Brasil, ansioso recebi minha sacola, com adesivos, uma revista da Land Rover Classic, uma badge que é uma plaqueta dourada e preta pra colocar no painel , emitida pela LRSOC(Land Rover Series One Club) alusiva ao encontro e comemoração dos 70 anos da LR e uma caixinha preta com um brinde aos associados, rapidamente abri e vi que era um lindo canivete multi funções gravado com o nome do Clube e uma lanterna de Led.
Já nervoso pra sair dali e começar a ver os séries estacionados, combinei com o Peter, que organizava a chegada dos participantes, que conseguisse pra mim uma carona para o passeio que teria no sábado de manhã , que passaria por uma pequena trilha em fazendas da região e que foi usada pelos engenheiros na época para os primeiros testes com o Series 1 e o caminho até Red Wharf Bay onde seria feita a foto com a montagem dos Series no formato de um Land Rover.
Depois de várias fotos pelo local, percebemos que a maior parte dos participantes estava com barracas ou motorhomes, verdadeiras casas ambulantes, com muitos cães, quase todos tinham um mascote ao lado, além dos vários modelos de trailers antigos.
Alguns personagens do mundo LR bastante conhecidos estavam por lá, o primeiro que encontrei foi um cara que tem uns vídeos no youtube no canal de Stephen Patchett, eles têm dezenas de vídeos fazendo incríveis viagens por vários países da Europa com seus Séries, é fantástico vê-los em ação e chegando em lugares tão bonitos e distantes, vale conferir. Depois encontrei a barraca do Phill, da Dunsfold, outra figura conhecida no meio, ele tem simplesmente mais de 100 Land Rovers, uma coleção incrível e uma loja que vende de tudo para os Series e LRover em geral, por fim encontramos o Patt Murffy que foi um dos seis estudantes que saíram em 1955 de Londres em dois Land Rovers para uma épica expedição rumo a Singapura e Adam Bennett que acabou comprando o lendário Land Rover apelidado de “Oxford” que tem a matricula SNX891, uma rara oportunidade de ver este icônico Land em movimento, foi empolgante ouvir um pouco das historias deles e conhecer este famoso aventureiro.
Em cada canto várias barracas com peças de Land Rover Series, novas e usadas, além do Club Shopp, que é a lojinha do LR Series One Club, com adesivos, camisetas, agasalhos, bonés, além de diversas peças de acabamento e acessórios.
Como geralmente todo o dono de Séries tem também um Defender, estes eram uma atração a parte também. Vários deles muito equipados com carretas e Acessórios. Fantásticos!
Sábado de manhã, hora de ir buscar a carona pro passeio, procurei o Peter de novo para ele me ajudar, já que não conhecia quase ninguém e ainda não havia encontrado meu amigo Dave até aquele momento. O Peter prontamente falou com Steve, que depois vim a saber que era o Presidente do Club Series 1, que acharia alguém pra me dar uma carona. Após alguns contatos, passou um Land Serie 1 Azul ano 1956, Mod. 107, este modelo é o antecessor do Defender, depois dele veio o 109 e logo em seguida o 110 que foi mantido até hoje. Impecável no estado e conservação, era de um holandês que tinha vindo com seu filho, rodando de sua cidade até a Inglaterra, para participar do encontro. Fui bem recebido por ambos e me assentei no banco traseiro, onde notei que o espaço era bem melhor que os Defender 110 atuais, depois percebi que a parte traseira do bagageiro é mais curta, por este espaço maior.
Tudo transcorreu bem, o 107 se comportou valentemente, tanto no deslocamento quanto nas trilhas pelas fazendas, passando por erosões e subidas íngrimes com perfeição. Já estávamos a caminho da Baia Red Wharf Bay para a concentração e montagem dos carros para as fotos, quando de repente uma pane apagou o Land.
Percebendo que era falta de combustível, ele foi logo abrindo o capô e conferindo a bomba elétrica , sempre ela, de todos os relatos que ouvi de proprietários antigos de Séries é que este é o “Tendão de Aquiles” dos Series, a bomba elétrica de combustível. Enquanto desmontava a bomba e conferia se era algum entupimento, vários outros Séries paravam e perguntavam se precisava de ajuda, típico do Jipeiro mesmo, a solidariedade era grande, em seguida parou um um Range Rover Classic oferecendo e, naquele momento achávamos que era o filtro de gasolina, e o cara do Range saiu e voltou em seguida com um filtro novo e entregou pra nós, mas o problema era na bomba mesmo, que teimava em não funcionar até que parou um outro Series, o cara desce e sem perguntar nada observou que a bomba já estava desmontada, ele volta no seu Séries 1 e pega no bagageiro um kit com uma bomba pronta pra ser instalada e simplesmente diz: “coloca aí depois você devolve”.
Mas não tivemos sorte, aquela bomba oferecida pelo companheiro também não funcionou bem, em seguida parou um outro Land pra ajudar, agora um Defender 90, super equipado que ofereceu ajuda e nos levou, puxados pela cinta, até Wharfer Bay, nosso destino final.
Chegando lá paramos no meio da praia, próximo a formação para a foto e, com mais calma e ajuda de mais companheiros, o problema foi resolvido.
Mas ainda faltava uma coisa, encontrar meu amigo Dave, não o tinha visto ainda pessoalmente, por telefone consegui mandar um recado e ele retornou, marcamos então no centro da roda da frente do Landy formado na areia pelos Series, até acho que saímos na foto oficial, pois lá do alto via-se um ponto escuro, acho que éramos nós, ali no meio de todas aqueles Series enfileirados, no local marcado finalmente encontrei o Dave, depois de quase 2 anos nos correspondendo por email, trocando informações e dicas de restauração, tive o prazer de conhecer este amigo Landeiro de tão longe. Ele me apresentou sua família, esposa, filho e nora, também apresentei minha esposa, minha filha e minha mãe que me acompanhavam e estavam na praia a minha espera, enquanto eu fazia a trilha.
Mais tarde, no jantar, preparei uma surpresa pro meu novo amigo, levei pra ele uma Cachaça bem mineira e uma placa dos “Amigos Land Rover do Brasil”, comemorativa dos 70 anos da LR, feita pelo nosso colega Persan, ele ficou emocionado e eu também por presentear o amigo que me ajudou muito durante o período que estava restaurando meu Séries.
Finalmente no domingo nos despedimos logo cedo, pois tínhamos que seguir viajem, íamos voltar a Liverpool e depois descer ao sul, com destino a outras cidades programadas até Londres, onde pegaríamos o vôo de volta.
Analisando toda essa aventura concluo que a paixão pelos Land Rover e a solidariedade de um Landeiro não tem fronteiras, o cuidado e carinho com estas viaturas, o prazer em ajudar não só nos momentos de aperto mas compartilhando informações e experiências é apaixonante, outra curiosidade é que lá eles não raramente mantém os Séries em estado original, com a pintura desgastada pelas marcas do tempo e principalmente de suas aventuras e são até mais valorizados do que aqueles restaurados como zero.
Refeito da viajem, volto ao trabalho com alegria e revigorado, certo de que todo o esforço e dedicação que temos com nossos Landys não serão em vão.
“Vida longa aos Séries”