Viver uma vida simples e feliz viajando o mundo, e alimentando os cães de rua que encontramos pelo caminho. Somente isso!
Por Sérgio Medeiros e Eleni Alvejan
Juntos desde 1994, já passamos poucas e boas e mesmo assim a felicidade sempre esteve dentro de nós. Costumamos dizer que o tamanho do seu sorriso define como você quer que seja seu dia; viver, aprender, ajudar sem julgar, agradecer, não fugir dos medos e saber enfrentar, isso sempre nos motivou. Olhar para frente e para cima, buscar o que não se pode ver e estar disposto a estender a mão, porque um dia você oferece, mas vai chegar o dia que você vai ter que saber receber. Nossa única missão aqui é ser feliz.
Não estamos salvando os cães do mundo ou transformando a humanidade, aliás, estamos longe disso. Sempre que se fala neste assunto é um “clichê”, mas para termos alguma influência em qualquer tipo de transformação global temos que mudar a nós mesmos. O mundo não muda, mas as pessoas sim. Tudo é uma consequência.
Em pouco mais de três anos de estrada já visitamos 16 países do Ushuaia ao Alaska e acumulamos incontáveis amigos pelo caminho, fazendo realidade este estilo de vida que nos dias de hoje tornou-se o objetivo de muita gente. Mas tudo tem uma história e um começo e o nosso foi há uns 10 anos atrás quando criamos a Turma do Pão com Mortadela. Era um grupo bem pequeno, e saíamos às ruas do ABC paulista distribuindo lanches, café com leite, roupas, cobertores, produtos de higiene para as pessoas em situação de rua e ração para seus cães. Era muito gratificante poder fazer algo pelo próximo e também aprendermos com isso.
Vimos e vivemos tantas coisas, experimentamos tantos sentimentos nestes anos de trabalho voluntário que seria impossível ficar indiferente a algumas mudanças internas pelo fato de estarmos tão expostos a uma realidade bem diferente da nossa, e assim fomos aprendendo a viver mais leves e simples, com menos, e viajar pelo mundo nos colocando a prova todos os dias. Era o que faltava para completar um futuro de belas incertezas e muita felicidade.


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E estas incertezas estiveram presentes todos os dias pois desde que saímos do Brasil tínhamos o acordo de nunca dizer “não” para os convites que eventualmente as pessoas nos fizessem. Claro que já entramos em várias roubadas e situações engraçadas mas com certeza sempre fizemos novos amigos. E um bom papo sempre gera um banho quente e uma maquina de lavar pra tirar o pó da estrada, e quem sabe com sorte um jantarzinho regado a vinho e uma cama quentinha e confortável!
Seja por causa do Defender, pelo nosso projeto com os cães, pelo estilo de viver ou as inúmeras conversas iniciadas nos estacionamentos, beiras de estrada, campings ou no meio da rua enquanto preparávamos nosso almoço, com certeza a simpatia e bom humor que procuramos transparecer quando nos abordam acabam sendo o termômetro que gera essas amizades, e dividir experiências de vida (muitas vezes regadas a um bom vinho, de novo) só aumenta nossa familia na estrada!
Cada país tem sua beleza e seus problemas. Se você estiver disposto a se entregar e mergulhar fundo em uma viagem como essa acredito que nunca terá uma resposta para definir qual país é o mais bonito ou o mais perigoso por exemplo. Sempre nos perguntam isso. Tudo são pontos de vista baseados em experiências singulares. Não deveria haver melhor ou pior. A America do Sul é o nosso quintal e já bem conhecida de muitos aventureiros. A America Central ainda uma incógnita para muita gente por ser considerada perigosa e complicada para atravessar e a América do Norte um lugar ordenado e bem mais seguro que nossos vizinhos, e que desperta a curiosidade geral quando se fala em dirigir até o Alaska sendo para alguns uma obsessão quando encaram este tipo de viagem.
Sempre haverá diferenças e para nós é muito complicado definir algumas coisas porque nos baseamos muito pelas experiências que tivemos com as pessoas enquanto visitávamos cada lugar. As montanhas, lagos, cavernas, estradas, praias e cidades sempre estarão nos mesmos lugares e conhecê-los com a gente local é sempre mais divertido. Vai muito do que você busca e o que quer enxergar com isso.
"Nenhum outro veículo vai te proporcionar experiências tão intensas e fazer mais amigos que ele, tanto que às vezes o chamamos de “micha”, a chave que abre as portas por onde passa"


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Depois de resumir, aliás “resumir muito”, a nossa vida nesses três anos de estrada chega a famosa pergunta: mas qual veiculo pra encarar tudo isso?
Sem sombra de dúvida um Defender, e com base em nossa experiência vivendo dentro de um há mais de 3 anos, a resposta para esclarecer as dúvidas das inúmeras perguntas ao longo dos anos foge completamente do convencional.
Nenhum outro veículo vai te proporcionar experiências tão intensas e fazer mais amigos que ele, tanto que às vezes o chamamos de “micha”, a chave que abre as portas por onde passa, e não nos interessa muito o fator mecânico, disponibilidade de peças ou manutenção. Tudo isso se consegue e se aprende, mas colocar um sorrizão no rosto e viajar com um Defender é algo inesquecível, incomparável. Pra nós essa é a definição do “mito” Land Rover. Não é o veiculo, é o que ele te proporciona.
Estamos constantemente nos adaptando na estrada e já fizemos várias modificações nele, desde quando saímos do Brasil já sabíamos que investir na manutenção e deixar o Defender o mais confiável possível seria o mais coerente e as mudanças foram simples conforme o bolso ajudava.
Para a Patagônia construímos apenas alguns armários modulados e um gavetão traseiro, dormíamos dentro do carro e quando veio a decisão de subir para o Alaska tivemos que melhorar um pouco esta configuração instalando uma barraca de teto, tanque de água, novos armários, geladeira, fogão, entre outras coisas básicas que “julgávamos serem essenciais” para viver dentro de um veículo, e claro que não eram. Por isso constantemente mudamos e nos desfazemos de coisas que não usamos, cada vez mais viajando leves e com menos. Lembram-se da frase: menos é mais? Pois é, no caso de viagens longas nosso conselho é que você leve isso ao pé da letra!
“Não busque maneiras de se manter em uma viagem, primeiro você tem que saber como diminuir suas necessidades e assim tudo fica mais fácil."
Depois que essa loucura toda se tornou nosso estilo de vida e a volta ao mundo algo inevitável, fizemos uma última modificação que acreditamos ser a definitiva: vendemos nossa barraca e o teto original instalando um pop-up, que é um teto retrátil e se abre completamente dobrando o espaço interno. Melhoramos ainda mais o interior e hoje em menos de 5 minutos armamos acampamento com a possibilidade de ficar em pé dentro do Defender, protegidos e confortáveis. Com certeza valeu todo o esforço financeiro que fizemos para tornar isso uma realidade.
Mas, tem que ser rico pra viver assim?
Claro que não, e quando se fala em finanças a regra do “menos é mais” também se aplica, e viver uma vida simples é o que define se você vai conseguir se sustentar na estrada ou não.
“Não busque maneiras de se manter em uma viagem, primeiro você tem que saber como diminuir suas necessidades e assim tudo fica mais fácil. Simplifique, minimize, e cada situação com a devida importância.”
Nós temos apenas o dinheiro do aluguel de nosso apartamento e aprendemos a fazer escolhas diariamente, assim não nos falta nada, e se falta damos um jeito, fazemos um bico aqui e ali e assim vamos levando a vida. Sem muita preocupação, buscando sermos felizes acima de tudo.
E os “causos” e perrengues em uma vida na estrada?
Muitos com certeza, pra falar a verdade nem temos como enumerar. Sempre aparece um novo e por mais que procuremos as vezes ficar invisíveis algo acontece e lá vem história pra contar. E historia é o que não falta!
Na Argentina estávamos com a ansiedade a mil, aprendendo a viajar, a convivermos 24h por dia, vendo as coisas mais rápido do que deveríamos e descobrindo o valor da verdadeira liberdade. Na Bolivia quase apedrejaram nosso carro, passamos por muita tensão na Estrada da Morte, e nos encantamos pelo Salar de Uyuni, já estávamos mais acostumados a nos adaptarmos às coisas, foi ficando mais leve e aprendemos a viajar mais confiantes.
Peru a princípio foi muito difícil, com um roubo logo no primeiro dia, mas em compensação ganhamos uma casa com vista para a montanha mais linda do país, fizemos a primeira família longe de casa e comemos muito ceviche!
“Viajar de carro é isso, estar exposto cem por cento do tempo, mas aberto ao inesperado, para viver uma vida completamente plena, livre, simples e feliz! "
No Equador foi a vez dos trabalhos voluntários, demos três voltas no país, fizemos amigos de alma, peludos e nem tão peludos, nos deslumbramos com os vulcões, águas termais, a selva, simplesmente apaixonante! A Colombia virou nossa casa, passamos mais de três meses por lá e fomos muito felizes com tanta gente boa que conhecemos e nem quando fomos parados pelas FARC tivemos qualquer receio, sem dúvida é um dos países mais lindos da América do Sul.
A América Central nos surpreendeu, de tanta beleza e gente amorosa, Bocas del Toro no Panamá, toda a linda Costa Rica que é “pura vida “, Nicaragua tão simples e ao mesmo tempo soberana com seus muitos vulcões, enfim, passando por Honduras, El Salvador, lugares que saem de qualquer rota turística, mas que escondem muitos lugares interessantes. E a maravilhosa Guatemala! Essa foi uma das melhores surpresas para nós, ali vivemos muitas histórias divertidas e emocionantes, com paisagens e lugares surreais, um país que vale passar com muita calma e conhecer cada pedacinho.
Pela exótica Belize cruzamos para América do Norte e o Mexico se tornou nosso queridinho, apesar de ali termos sofrido um segundo roubo; mas isso não tirou nosso entusiamo, principalmente pela Baja Califórnia, um lugar que sem dúvida passaríamos o resto das nossas vidas.
Então entramos nos Estados Unidos, onde se mergulha em outro mundo, se aprende muito, seja pela lingua ou pela diferença cultural. Cruzar a “Golden Gate” em São Francisco ou percorrer a “ Las Vegas Strip” com próprio carro é uma experiência no mínimo hollywoodiana, impossível não achar incrível! Sem contar os “Parques Nacionais”, escolher o mais impressionante é uma missão impossível.
O Canadá para nós foi a única fronteira complicada, mas foi o país dos animais selvagens, ursos, alces, bisões, raposas todos ali no seu habitat natural; dos lagos, das estradas mais lindas do mundo, o país que chegamos no fim do mapa, com direito a amigos esquimós.
E o Alaska foi nosso sentimento de dever cumprido, de provar o gosto de ser capaz; de se deslumbrar com paisagens que não existem em nenhum lugar do planeta, o sentimento de chegar, de cruzar a última fronteira. Impossível não se transformar, não ver a própria existência de outra maneira, de não querer sempre mais.
Viajar de carro é isso, estar exposto cem por cento do tempo, mas aberto ao inesperado, para viver uma vida completamente plena, livre, simples e feliz! Coisas ruins podem acontecer, gente ruim pode aparecer, mas a bondade e as coisas boas sempre vão prevalecer.
Correr atrás dos sonhos, mesmo que eles pareçam loucos e distantes tem muito mais a ver com coragem do que com dinheiro, este é importante sim, mas não é a parte essencial, a chave é ter muita vontade de fazer dar certo e se divertir até nos momentos difíceis, tudo sempre tem jeito, com leveza e cabeça fria tudo se torna mais fácil.
Se jogue de cabeça no mundo, faça acontecer, de carro, de bicicleta, a pé, de carona, mas se for com um Land Rover, melhor ainda! Você fará parte de uma enorme e verdadeira família.