Um sonho realizado e com muita personalidade
Por João Lemgruber
Quando comecei a busca que me faria encontrar meu noventinha, há dois anos, eu sabia bem o que me aguardava. Tudo o que eu queria era um carro 4×4 autêntico e bruto, bastante coerente com a minha personalidade. E eu consegui. Dirigir um Defender no dia a dia é uma experiência incrível. E para alguém como eu, que usa o carro praticamente o dia todo, todo dia, é quase impossível não transformá-lo numa sucursal de casa. Meu noventinha chega a ser motivo de brincadeiras entre meus amigos. “Mas o quê que você não tem nesse carro?” Perguntou um deles no dia em que precisou de fita isolante e eu puxei da cubby box tão rápido quanto um vendedor de água no trânsito.
Eu sabia muito bem o que não tinha, ou, na verdade, o que tinha: teto. A mania de carro conversível começou há muito tempo, quando eu ainda tinha uns cinco anos e vi, pela primeira vez, um Jeep Willys, teto de lona, nas ruas de Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro.
Era incrível. O motorista dirigia o carro com tanta certeza de si, tão realizado, que eu nem percebi que estava chovendo. Mesmo encharcado, o motorista estava tão feliz, que aquilo me contagiou de alguma forma. Ajoelhado no banco de trás do carro da minha mãe, eu olhava pela janela traseira o jipe, sem teto, na chuva de verão. Mais de quinze anos depois, na oficina que se tornou minha segunda casa – lembrando que o Land é meu primeiro –, vi um amigo transformar seu noventinha em picape. O dono, Gilberto, estava tão feliz com seu novo brinquedo que me lembrou o rapaz encharcado da serra carioca. Então veio o devaneio: buscar um Defender soft top. No Brasil eles são muito raros, mas na Europa são bastante populares, tanto que o último Defender a sair da linha de montagem inglesa foi um soft top.



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Achar um a venda não foi difícil. Sempre digo que o que o mundo Land Rover me trouxe de mais valioso foram os amigos que fiz. Entre eles, um que realmente me adotou foi o Ricardo Aita. Dono de uma oficina no Rio, eu comecei a perceber que a gente ficou amigo quando passei a ir à oficina só para conversar e aprender. E continuo fazendo isso e aprendo cada vez mais.
Aita tinha um soft top para vender. Carro que foi de uso dele e em bom estado. Da mesma cor que o meu, eu fiz uma proposta indecente: trocar tudo que tinha no meu carro que ele precisaria para fechar o dele em todas as peças do carro dele que eu precisaria para tornar o meu um soft top. Nada feito, mas ele botou lenha na fogueira e disse “não é tão difícil transformar o seu em soft top.”Com um sorriso malicioso perguntei, “não mesmo?” e a resposta foi libertadora: “já fiz dois aqui na oficina”.
Esse dia foi uma virada importante porque me fez perceber que a ideia era executável e que o Aita ia me ajudar. Três dias depois desmontamos o teto do carro e eu voltei com ele — ou três quartos dele — para casa. Eu estava tão feliz, tão realizado que só faltava uma chuva de verão e as ruas de Teresópolis para ser o rapaz do jipe.

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Andando pelas ruas do Rio, eu parecia uma criança com um brinquedo novo. Ao sair para comprar cigarro, ao invés de ir no posto de gasolina no fim da rua, resolvi atravessar o Rio só para poder dirigir mais tempo.
Por sorte ou azar a chuva de verão não veio e no dia seguinte começamos a fabricação do santo antônio — também conhecido como gaiola ou roll cage. Resolvi fazê-lo no molde dos Defender NAS, que foram para os Estados Unidos. Um soft top europeu não tem santo antônio, apenas uma armação para manter a lona armada, enquanto os estadunidenses têm uma gaiola forte que serve também como estrutura para a lona.
Logo no começo eu resolvi que faria da transformação um processo sem nenhum tipo de importação. Seria bem mais fácil importar a armação e a lona da Inglaterra, mas eu queria fazer do meu jeito. Fazer com autenticidade. Foi isso que me vendeu o carro, o mundo Land Rover e até este projeto em si.
O santo antônio foi fabricado na oficina Silencano, especializada em escapamentos. Afinal, era uma loja especializada em solda e tubos de aço, tudo o que eu precisava.
Eu, Aita e o dono da loja, Bruno, desenvolvemos a estrutura, que não chega a ser uma cópia fiel da gaiola do Defender NAS, mas que é baseada nele. Fizemos algumas mudanças pequenas para que fosse mais confortável para mim e para os passageiros. Além disso, a estrutura foi desenvolvida para que, caso seja necessário, possa ser removida do carro com relativa facilidade, ou seja, nada foi soldado ao carro, somente aparafusado, sistema que exigiu reforços em diversas áreas, mas que trouxe a conveniência de não alterar a estrutura original do carro.
Depois de uma semana de trabalho, a estrutura ficou pronta. Mais cinco dias e estava pintada. Integradas à estrutura, foram construídas as molduras das portas laterais, que continuaram as originais – dessa vez indo contra o Defender NAS, que usam uma “meia porta”, só com a metade inferior, e um vidro destacável; e seguindo o padrão dos soft top europeus, que integram à estrutura, uma moldura para a porta.



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Agora era a vez de desenvolver a lona. O Aita recomendou o capoteiro Michael, da MSG capotaria, em São Cristóvão, o reduto das autopeças do Rio de Janeiro. Eu já tinha ido à loja dele alguns meses antes por outro motivo e tinha visto em sua loja uma Mercedes conversível antiga recebendo uma reforma na capota. Fiz uma visita ao Michael, que sugeriu que a capota fosse feita com uma lona sintética, que não encolhe e que é utilizada tradicionalmente nos Willys. Num primeiro momento eu aceitei, mas voltei atrás e resolvi fabricar a lona com o tradicional tecido de algodão encerado, na cor mostarda. Michael me advertiu sobre o encolhimento do material, mas resolvi arriscar, afinal, foi essa lona que fez o coração bater mais forte quando vi o último Defender, um da série especial Heritage, sair da linha de montagem na Inglaterra. Michael foi de suma importância para assessorar no desenvolvimento da capota, compartilhando comigo toda sua experiência em capotas de carros conversíveis e jipes.
Depois de alguns percalços na fabricação da capota, o carro finalmente ficou pronto. Faltavam ainda mais alguns ajustes para que pudesse realmente dar o projeto como encerrado, entre eles a instalação de uma cubby box da Rallye Design feita com uma tranca, para que eu possa guardar algumas coisas com segurança no carro, que ficou bastante vulnerável, principalmente para as ruas do Rio de Janeiro.
Quando o carro finalmente ficou pronto, foi como o final de um filme bom. Tudo fazia sentido, as pessoas sorriam para mim na rua, era um sonho. Para fechar o processo, fui colocando novamente no carro todas as minhas coisas. Ferramentas, equipamentos para trilha e viagens e todas as traquitanas que, acredito eu, podem ser úteis algum dia. Ocupar o carro novamente foi o momento que a ficha caiu. Era sonho realizado. Eu, como landeiro, jipeiro, gearhead , fanático por carros, ou sejá lá qual a expressão que você use, acredito que o carro seja uma extensão da nossa personalidade.
A realização e satisfação são enormes. Não importa se você gosta do seu carro todo original ou todo personalizado, todo adesivado ou sem adesivos, com pneus grandes ou pequenos, no asfalto ou na trilha. Nada disso importa. O que importa mesmo é sentir que o seu carro tem o seu espírito, mostra exatamente quem você é. E nessa brincadeira, quase de criança, só há uma regra: independente de como seja seu carro, o importante é que seja, de forma autêntica, como você.