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Land Lady: Ana Branco

Por João Lemgruber

Lembro a primeira vez que vi Ana Branco pelo campus da faculdade. Uma mulher pequena e de cabelos bem brancos, sempre sorridente. Ana é do tipo que sorri com os olhos. Envolta por frutas, estudantes e crianças que ali participavam do seu projeto com alimento vivo. No mesmo campo de visão, um Defender 110 verde com teto branco, um carro de chamar a atenção no marasmo de carros modernos em tons de cinza que inundam o estacionamento da faculdade carioca.

Vagarosamente, Ana caminhou em direção ao carro, que abriu, ligou e saiu dirigindo, cheio de caixas de frutas e hortaliças no bagageiro. As caixas estavam soltas mas não caíram. O carro subiu bem devagar a pequena rampa e saiu do campo de visão. Agora eu só escutava o suave ronronar do 300Tdi, que, mal saiu da marcha lenta e acabou, quando Ana desligou o motor. O tipo de cena que poderia estar num filme europeu, com um Nocturne de Chopin ao fundo. Aquele balé de caixas, frutas, legumes, crianças e Land Rover chamou minha atenção. Eu nem estava no mundo Land Rover ainda.

Ironicamente, alguns meses depois, eu já era landeiro quando um aluno dela não conseguiu manobrar o carro e eu me voluntariei para a tarefa. Verdade seja dita: eu queria muito dirigir o carro, conversar com ela. Assim que acabei a pequena manobra, Ana veio conversar comigo. Contei que tinha um carro igual e ela sorriu. Começamos a conversar e não paramos por quase uma hora. Em dado momento contei que estava procurando um par de bancos traseiros para minha noventinha. Ela possuía um em casa e, sem nem me conhecer, me deu de presente. Na mesma semana eu fui buscar.

Ana conheceu os Land Rover ainda menina. Seu avô tinha um quando ela era criança. Ele, que construía moendas para as salinas de Cabo Frio, no litoral fluminense, gentilmente cedia o carro para a neta brincar de bonecas. “Assim que eu entrava de férias, ele ficava sem usar o carro, para não desmanchar minha casa de bonecas.”

Muitos anos depois, em 2005, Ana foi à praia com as netas, ainda com seu Gurgel BR-800. Ela tinha recebido, naquela semana, uma certa quantia referente ao confisco da poupança do governo Collor e pensava sobre o que fazer com o dinheiro. “Eu passei na frente da concessionária da Land Rover e vi um igual ao do meu avô. Na mesma hora entrei e dei o Gurgel como parte do pagamento.” Voltando da praia, com as netas e um dinheiro inesperado, Ana entrou no mundo Land Rover. A cor que remetia ao velho Land Rover do avô não foi o único motivo.

“Eu precisava de um carro maior. No trânsito do Rio de Janeiro, ter cabelos brancos é uma ofensa. Eu precisava de um carro para ser respeitada.” Para ela, o avô foi um guia espiritual para a compra do carro, como se ele tivesse juntado todas as peças necessárias e conspirado para que aquilo acontecesse naquele momento.

Em um momento eu pergunto a ela se o carro já a decepcionou. “Jamais.” Categórica em dizer que o carro sempre trouxe alegrias. Foram diversas viagens pelo sul e nordeste do país, sempre para divulgar seu projeto chamado Biochip. O projeto procura aproveitar as informações contidas no DNA das frutas, sementes e hortaliças para o bem-estar do corpo humano.

Um adesivo chama a atenção no carro de Ana. É um adesivo do Fórum Social Mundial, que é um evento internacional organizado por movimentos sociais e que busca a elaborar alternativas para uma transformação social global. Grande parte das viagens de Ana com seu Defender pelo Brasil está ligada a este evento, que ocorre de forma descentralizada. Para ela, o adesivo é como um passaporte, que já permitiu, por exemplo, que ficasse hospedada em um convento dos capuchinhos.

Hoje avó, Ana ri ao contar que suas netas brigam pelo carro. Com idades que variam entre 6 e 18 anos, as sete netas se digladiam pelo carro. Para ela, o carro é para sempre e representa o fim da cultura do descarte. “São como essas sandálias Birkenstock que eu estou usando e que, reparei agora, você também: para sempre.

A minha tem 40 anos e continua confortável.”, disse sorridente apontando para nossas sandálias que, coincidentemente, eram da mesma marca alemã.

Ana é o tipo de pessoa que a conversa sempre é interessante. Me fascinou a forma como vê o mundo e, também, seu Land Rover. Fora do circuito, ela não participa de grupos da internet ou consome material ligado à marca. Ainda assim, não há como não dizer que seu estilo de vida é bastante afinado com o estilo de vida landeiro. Ao final da conversa, brinco com ela dizendo que foi muito bom conversar sobre carros. Ela me olha séria e responde: “Carro não.” Paro a caminhada e olho para ela, surpreso. Ela sorri com boca e olhos e completa: “Land Rover.”

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