Ele parece ter saído de um Road movie. Por trás da cara de bravo, de quem vai puxar uma calibre 12 escondida em algum lugar em sua garagem, está uma personalidade importante no meio Land Rover.
Por Eduardo Rocha | Fotos Reinaldo Junqueira
Conhecedor, inteligente, culto e dotado de uma simplicidade e de um senso de humor notáveis. Resgatou e restaurou belos exemplares da marca Land Rover no Brasil.
E é um grande garimpeiro de peças de Series.
Ernie trabalha com artes e antiguidades. Um profissional com conhecimento e sensibilidade para reconhecer o que é bom. De um lustre Lalique ou de um jogo de chá de porcelana de Sèvres a um bom exemplar de Land Rover jogado em alguma fazenda pelo interior do Brasil.
Ernie sempre gostou de jipe, mas não tinha dinheiro. Tinha uns carros velhos, todos arregaçados (segundo ele) até que um dia, viu um anúncio vendendo um Land Rover, um defender baratinho, em 2001. Resolveu que era hora de ter seu Land Rover.
Uma segunda feira foi lá ver o carro. Era nada mais, nada menos que o Luiz Fraga, dono da Specialist. Sua oficina ficava próxima a Avenida Santo Amaro.
Ernie chegou com o anúncio na mão, todo humilde e o Luiz Fraga, disse: “fique a vontade, ele está lá atrás”, era um vermelho de capota branca, SW. “Era um lixo, feio como satanás. Ele não tinha painel e a placa era de Cabo Frio, pior ainda, quando eu vi que não tinha painel e que estava lotado de terra e com as rodas enferrujadas”. Agradeci ao Luiz e disse que o carro não era pra mim.
No domingo seguinte, viu um anúncio no Estadão, era da Option, chegou 8 da manhã, antes de abrir a concessionária, sentou na escada e esperou abrir. Quando abriu, disse que tinha ído por conta do anúncio e o vendedor disse que já estava vendido. “Como assim? Você anunciou no domingo, cheguei antes da concessionária abrir!” “Deixa eu ver o carro!”. Era um SW verde, soft top com guincho e estepe no capô. Ernie não se conformou. Depois, descobriu que o carro estava reservado para um cara que nem foi ver e foi vendido para um terceiro.
Foi então ver um outro, que era de um diretor do Grupo Pão de Açúcar, como mora na região da sede do Pão de Açúcar, ligou, uma secretária o atendeu, marcou hora e ficou na porta esperando ela descer. Ela demorou uma hora e meia e disse que o carro estava na garagem. “Teria a chave para olhar por dentro?” Não! “Posso fazer uma oferta?” Mais uma vez um sonoro não. Foi embora e não comprou novamente. Anos depois conheceu esse diretor na oficina do Luis Fraga e disse: “sua secretária é o mau humor personificado”. “É bonita, mas uma casca de ferida. Deixei de comprar seu carro”.





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Um dia foi na Option e o vendedor disse para eu comprar um Defender novo, estava por R$53.000,00. Devia ter um cinquenta mil, fui na loja de um amigo e queimei o Monza.
Comprou o Defender sem nunca ter guiado um. Foi ao test drive. Um Defender que ficava em cima de um monte de paralelepídedos e tinha que descer uma escadaria no showroom. Pegou a chave e disse: “onde que liga?” Aí ele disse que era do outro lado. Ligou. “Cadê o vidro elétrico?” “Não tem, é aquela maçaneta alí embaixo. Olhou para o vendedor e pensou: “Arrependimento”.
Ernie andava no mais legítimo estilo praiano, de bermuda e chinelo. Tranquilo, crente que já dominava aquela máquina. Quando foi sair já deu uma fechada geral nas 3 pistas da Av. Berrini pois o carro não esterça e ele não sabia disso. Saiu na pista da esquerda e já foi entrar na primeira rua (à direita), já fechando todo mundo novamente. Xingaram muito!
Voltaram, pagou e não queria voltar dirigindo. “Eu não quero mais esse carro, pode colocar pra vender que eu não quero mais!”. O vendedor disse que o carro era ideal para ele, que ele tinha todo o perfil e que tão logo se acostumasse, que nunca mais ia se desfazer dele. Segundo Ernie, até agora ele não sabe se foi algum tipo de profecia ou uma maldição pois está com ele até hoje.
Tempos depois, foi a um evento promovido pela Land Rover em Tiradentes. Foi o primeiro a chegar, os primeiros 10 números eram da organização, o 11 era dele.
Como trabalhava com antiguidades, na segunda feira era o início da sua folga. Ao chegar lá num estacionamento enorme, perto da estação de trem, começou a ouvir uma música engraçada (letra impublicável) e um grupo se matando de rir. Uns “xaropes”, mas muito boa gente. Ficaram amigos.
No dia do passeio no evento foi no Series I 1948 do Mathias, que apesar de ser uma mistureba (motor de Opala e etc) ganhou o Prêmio de carro mais antigo no evento. Ernie ficou com isso na cabeça. Era a semente do que estava por vir.
Aí numa outra ocasião foi visitar os amigos em Taubaté e disseram para ele: “ô inglês, tem um Serie I para vender em Caçapava, numa fazenda de café”. Foram lá ver. Conversou com o responsável pelo espólio e fechou a compra do carro por R$ 4.500,00. Mais um guincho de Caçapava a Taubaté, onde começou o restauro desse carro. Era um 1952. Mas o chassi estava podre. Totalmente podre. Aí acabou comprando um chassi do Marcos Scavacini em Itu, que designou um alemão para negociar com ele. Segundo Ernie, o homem “arrancou-lhe o couro”. Mas acabou comprando quase um Serie I inteiro desmontado, que trouxe até Taubaté para o início dos trabalhos.


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Hoje está em fase final de restauro, numa cor chamada “Beige Malaysian Ivory”, uma cor que não faz parte da paleta de cores da Land Rover, mas que é muito bonita. Cogitou até fazer em “Pink Panther” (cor utilizada nos Land Rover, pelo SAS, Special Air Service ou as tropas de elite britânicas. A cor rosa se torna especialmente eficiente em deslocamentos no deserto especialmente no amanhecer e por do sol). Mas como vivemos num país onde “se perde o amigo, mas não se perde a piada”, achou melhor optar pelo “Marfim da Malásia.
A capota (inglesa), cardan, painel e etc, foram comprados aqui em São Paulo. A capota está com as marcas do tempo, o que dá um charme especial ao carro.
O motor estava com o bloco trincado e Ernie ficou mais de 1 ano e meio procurando um bloco. Mas como rodava muito por São Paulo atrás dessas coisas, acabou encontrando na Garagem Palácio, antiga oficina de São Paulo, na rua Martim Francisco, dois motores no chão. Um 1.6 e outro 2.0. Ele pediu para separar a peças de um e de outro, que viria buscar em 1 semana. Voltou e o dono da oficina havia vendido cada motor por R$100,00. Continuou a busca e acabou encontrando um bloco 2.0 em Interlagos, com um senhor chamado Elmo. Levou o bloco e os outros componentes na retífica Retifort, onde foi feito todo o serviço do motor. Carburador foi feito numa empresa próximo da via Anchieta, radiador foi feito na Radiadores Pinguin e motor de arranque e dínamo feitos no Yamada em frente à The Specialist.
Garimpou alguns acessórios de época, inclusive um curioso suporte de fuzil para ele. Com seus conhecimentos no mercado de antiguidades, conseguiu que um restaurador de peças em baquelite, refizesse o volante inteiro. Ficou perfeito!
Ernie ia ao menos duas vezes por mês a Taubaté para levar peças e insumos. Agora já está em fase final, quase quase. Na primeira partida, saiu agua para todo lado. Na segunda, foi o volante que saiu na mão dele. Mas faz parte da aventura que é restaurar um carro.
Nesse meio tempo, ele sofreu um acidente grave na Serra do Corvo Branco e seu Defender 90 prata, foi condenado. Acabou comprando um Defender 90 2003 que hoje tem incríveis 39.000 km e que roda pouco. O do acidente, foi recuperado pelo Mathias de Taubaté e é o carro de uso frequente.

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O tempo passou e apareceu um Serie IIA 1965, a venda em Curitiba. O valor era alto, mas fez uma oferta e o vendedor aceitou.
Almoçou um risoto e meteu o pé na estrada. O carro não tinha luzes, não tinha freios, não tinha nada, nem buzina, a BR 116 toda cheia de desvios e para piorar o risoto não caiu bem. Veio visitando inúmeros banheiros pelo caminho. O carro não passava de 40km/h pois estava travado na reduzida. Conseguiu chegar em casa e apagou. No dia seguinte ao olhar o carro na garagem, havia ao menos uns 16 vazamentos de óleo. Rodas, motor e locais diversos. Passou uns 10 anos reparando todos os problemas. Deu trabalho, mas é um carro bem raro no Brasil, um Diesel aspirado.
Esse Serie IIA tem algumas curiosidades. Foi fabricado tanto para exportação, para uso civil ou militar. Ele tem as lanternas dianteiras uma ao lado da outra. Se fosse para uso civil, na Inglaterra, seria uma em cima da outra. Lado a lado, ela permitem a instalação de um Jerry Can na frente do carro sem cobrir as lanternas. Ele foi doado a um convento de freiras no Paraná, provavelmente pelo Vaticano e ficou muitos anos parado em uma garagem, até ser comprado pela pessoa que o vendeu para ele. Como as religiosas não sabiam como mudar os modos de tração, então deixavam ele sempre em modo 4×4 reduzido e isso acabou prejudicando seu bom funcionamento, depois de parado por décadas.
Alguns Series ainda estão pelo Brasil, mas muitos descaracterizados, o que é uma pena. As dificuldades aqui são imensas para o restauro. Muito a ser feito.
Ernie chegou a ter um Serie I 1951, todo documentado, que acabou vendendo para o dono da Galvanizadora Aeroporto. Esse também um verdadeiro calvário na busca de peças para o restauro. Por isso, sempre que encontrava algo para os Land Rovers antigos, arrematava como forma de preservar um estoque de peças caso fosse necessário. Chegou a arrematar todo o estoque de peças da Garagem Palácio, que foi oficina Land Rover nos anos 50, 60 e 70. Nesses itens estão inclusive uma tomada de força e dois guinchos Capstan (na caixa).
Perguntado se vai encarar algum projeto novo, foi taxativo: “ Não vou adquirir mais nada. É com esses que vou até o fim da vida”. É uma eterna busca de fornecedores, noites sem dormir pensando no projeto. Aí você encontra um fornecedor para fabricar os tanques de combustível em Piracicaba. Mas ainda falta uma série de itens. E a busca recomeça. É um trabalho de muita paciência.
“O cara que quer restaurar, não pode ter pressa e tem que saber que não vai ter moleza. Vai ter que procurar muito, no Brasil e no exterior. Fora do Brasil tem que procurar os detalhes, as peças pequenas e no Brasil as peças grandes e pesadas. Mas sem paciência, melhor pensar em outra coisa”.