Em busca de superar desafios e registrar o mundo de forma bela, nós, fotógrafos, embarcamos de carro para uma experiência inédita para ambos: transformar o nosso Land Rover Defender em motorhome e dirigir até Bariloche, sem pressa, apreciando tudo de belo que havia pela frente.
Por Evandro Rocha e Fernanda Luna

Clique naa imagem para ampliar
EVANDRO ROCHA:
Um sonhador, sempre indo além do que ele mesmo imaginava. É dono de uma racionalidade e perfeccionismo que fluem de forma tão constante e natural que não o deixam fazer nada abaixo do maravilhoso. Admiro de perto há 1 ano como ele é bom em tanta coisa: fotógrafo, empresário, videomaker, tio, amigo, namorado, piloto de drone e motorista de caminhão (risos)! É centrado nas conquistas, e mais ainda no caminho para chegar até lá.
Carrega um sorriso lindo que usa toda hora, tá sempre de bom humor, até nos perrengues faz piada querendo me deixar tranquila (risos). Ele não existe!
FERNANDA LUNA:
Além de linda, minha namorada é uma excelente fotógrafa de casamentos e ensaios. Há 5 anos, deixou os estúdios de fotografia das Lojas Marisa para se dedicar ao que mais ama: fotografar pessoas. Muito antenada às novidades, é expert em stories e mantém seu feed do Instagram sempre impecável. Fica super empolgada com nossos projetos, ideias e ideais e é uma parceira incrível, daquele tipo de pessoa que você não quer sair de perto por nada (perfeita para viagens longas rssss). Super carismática e amável com todos que conversa, não mede esforços quando o assunto é fotografar e viver novas experiências.
DEFENDER 110:
Evandro comprou o “trator” em dezembro de 2017, depois de se cansar de furar pneus nos buracos da cidade com um carro esportivo. A idéia inicial era só trocar de carro, por algum que se adaptasse ao seu jeito de dirigir e aos buracos (risos) porém, quando conheceu melhor o Defender, ele é que precisou se adaptar ao carro, aumentando mais ainda sua vontade de sair pelo mundo. Depois de 3 meses buscando um Defender em bom estado, fomos até o RJ buscar essa belezura e já dirigimos nele os 900km da volta, na nossa primeira viagem.
O defender é um 4×4 pau pra toda obra, 2005, a diesel, motor Tdi, que faz de 8 a 11km por litro, com velocidade de cruzeiro entre 110 e 120km/h. É beeemmm barulhento, o que nos obriga a ouvir música bem alta dentro dele. Tem um bom espaço interno e por fora não é tão grande quanto parece (dá pra estacionar tranquilo). Ele também cabe dentro de containers, caso a gente queira enviá-lo para uma viagem mais longa (Europa, por exemplo).
A INSPIRAÇÃO
A vontade de fazer essa viagem surgiu há um ano, junto com outros planos de inicio de namoro. Fomos estimulados por experiências maravilhosas que passamos, como uma viagem de Motorhome do Evandro com os amigos Neto e Renan pelos Estados Unidos, e logo em seguida nós dois acampamos 10 dias no deserto, no incrível Festival Burning man. Veja mais em www.evandrorocha.com.br/burn.Todo inverno, o Evandro vai para Argentina ou Chile andar de Snowboard com os amigos, mas para esse ano queríamos que fosse diferente. Nos inspiramos no trabalho, viagens e estilo de vida de vários fotógrafos e casais, como a fotógrafa russa Anastasia Volkova além de outros aventureiros e youtubers como Daytrippers e Vivendo mundo afora, o que deu mais vontade ainda de pegar a estrada o quanto antes. Para nós, inspiração são as influências positivas que você coleciona em tudo que faz, nos filmes que assiste, nas conversas que tem, nas comidas que experimenta e, em especial, nas viagens que faz, conhecendo novas culturas e estilos de vida




Clique nas imagens para ampliar
capítulo 1 – primeira noite
Ajeitamos tudo no carro na noite anterior da partida: malas, pranchas de snowboard, estrado da cama, colchão, ferramentas e etc. Essa organização levou um bom tempo e fomos dormir bem tarde, o que na manhã seguinte refletiu no atraso da nossa saída. Às oito horas da manhã, tomamos café e partimos de São José do Rio Preto – SP rumo a Bariloche. A primeira parada seria Florianópolis-SC, mas depois de 4h de estrada já estávamos cansados (dormimos pouco e o sono estava começando a bater…) e qual a melhor parte de ter a sua cama dentro do carro rs? Poder parar embaixo de uma árvore e dormir! Cochilamos por pouco mais de 1h antes de seguir viagem, e essa foi a pré-estreia do carro como nosso quarto. Antes de chegar em Curitiba, o trânsito estava bem parado e já era tarde da noite, dois ótimos motivos para sair da rodovia e procurar um lugar para estacionar e dormir. Estávamos em Campo Largo, e pela imagem de satélite do celular (Google Maps),
vimos uma área verde afastada, que parecia uma floresta, e foi para lá que seguimos! Como estava de noite, não conseguimos ter muitosdetalhes do caminho, mas parecia ser uma vila bem pacata. Passamos por algumas porteiras, sítios, vacas e seguimos até o final da estrada de terra, saímos pela grama que beirava as árvores e descemos um pequeno morro até ficar meio escondido e sem dar vista para a vila.
Fazia um pouco de frio, nos agasalhamos, arrumamos a cama, fechamos as cortinas, e dormimos. Logo pela manhã, quando acordamos, ao abrir a janela nos surpreendemos com a primeira vista do nosso hotel ambulante. O que de noite parecia ser só mato, na verdade era um campo aberto com pequenas flores, e do lado da janela do Evandro, enormes pinheiros que nos ofereceram sombra para preparar o café da manhã, com ovos, palmito, café (que ficou bem aguado por sinal rsrs), tudo servido na nossa mesinha de madeira, que também era o suporte para o estrado da cama.


Clique nas imagens para ampliar
capítulo 2 – Dunas
Seguimos rumo ao litoral e pouco antes de chegar em Itajaí/SC, o Evandro sentiu que o volante estava vibrando muito. Pedimos ajuda para um amigo que mora lá próximo, o Edson Beline, que nos indicou um lugar em Camboriú onde fomos fazer balanceamento. Um pneu estava deformado, pois era o estepe, que meses antes foi trocado por engano pelo cara que pintou as rodas do Defender.
Problema resolvido, fizemos uma pequena pausa em Florianópolis, no Gabriel e Suelen, que gentilmente nos cederam o primeiro banho e recomendaram que dormíssemos em Torres, um lugar bonito e seguro, mas… Já era a noite, quando no caminho o Evandro apontou um morro de areia do lado da rodovia, e pela imagem de satélite do celular vimos que se tratavam das Dunas de Imbituba, pareciam ser enormes. O Evandro pediu para eu confiar nele, deu seta e saiu da rodovia.U-A-U, essa foi nossa ao reação ao nos deparar com aqueles morros gigantes de areia, iluminados somente pela lua. Esse foi o cenário perfeito para fotos, videos, e para descansar mais uma noite.
capítulo 3 – cruzando fronteiras (DIAS 3, 4,5 e 6)
Seguindo viagem, fizemos uma parada, comemos sushi e dormimos no talentosíssimo e querido @GuilhermeCoelho e sua namorada @Juliachoffmann, que nos deu várias dicas e ainda emprestou 2 lentes para registrarmos a aventura.
No dia seguinte seguimos para o Sul, para cruzar a fronteira do Brasil pelo seu ponto mais extremo: Chuí. Ali, na verdade não vimos muita coisa legal, além de cata-ventos gigantes (parques eólicos). Como de costume, fazemos imagens de drone pelo caminho, e em uma dessas paradas, quando o Evandro voltou para o carro, o cinto de segurança dele travou. Ele não conseguia mais esticar o cinto para prendê-lo, e estávamos em um momento da estrada que não havia nada por 150km a frente e nada em 120km para trás. Foi um pouco desesperador viajar sem cinto, além de não estar seguro, foi um imenso desconforto. Por sorte avistamos uma borracharia e o borracheiro tentou destravar e desrosquear para concertar, mas não conseguiu: o cinto tinha travado de vez. Seguimos sem cinto para a fronteira.
Já era quase 00h quando finalmente o Defender colocou as rodas em território internacional: chegamos no Uruguai. Na Aduana foi bem tranquilo, só mostramos os passaportes, documentos do carro e a Carta Verde.
Fizemos uma reserva pelo Booking em um hotel de frente para o mar, em Punta Del Diablo e quando chegamos, debaixo de chuva e frio, não havia ninguém na recepção do hotel para nos atender, e nenhuma luz acesa. Entendemos isso como um sinal, voltamos para o carro, arrumamos a cama e zzzzzz… de frente para o mar, no estacionamento do hotel. Na manhã seguinte fomos informados na recepção do hotel que não havia energia e por isso nossa reserva não constava nos dados. Seguimos viagem e conseguimos resolver o problema do cinto no caminho. Paramos para almoçar em Rocha – Uruguai e dirigimos o dia todo até Punta Del Este. Dormimos bem ao lado da Casa Pueblo, depois que o guarda do museu nos disse que ali estávamos seguros. A próxima fronteira que cruzamos foi de Uruguai – Argentina, dessa vez pela água! Entramos com o carro e tudo por uma Barco-Balsa, a travessia durou 1h e assim que chegamos já fomos para um hotel na saída de Buenos Aires.




Clique nas imagens para ampliar
capítulo 4 – a cidade inundada
Imagina uma cidade cheia de resorts, turistas e badalação: essa era Epecuen na década de 80. Mas devido ao rompimento de uma barreira em 1985, essa cidade turística foi engolida pelas águas do lago Epecuen. É claro que fomos ver o que sobrou da cidade de perto.Dirigimos 540km sem pausa de Buenos Aires á Epecuen, para conseguir ver a cidade ainda de dia. Logo na entrada do lago já cruzamos estradas inundadas, em alguns trechos a água encobria o asfalto. Em uma dessas partes alagadas ouvimos um apito no painel da Defender e uma luz de alerta acendeu, vish.. paramos na hora! Consultamos amigos e o mecânico no Brasil por whats app e nos informou que era a luz de alerta de aquecimento no sistema de transmissão, e mesmo depois de esperar uns 45min com o carro desligado, no meio do lago, a luz não apagou. O Evandro chegou a conclusão que entrou água no sistema elétrico e afetou os sensores, e só por isso a luz acendeu, então decidimos continuar. Um pouco mais à frente já vimos os primeiros sinais da catástrofe: metade da cidade está pra fora da água, porém toda em ruínas; parecia que estávamos num cenário de guerra.
Ficamos ali até o por-do-sol, que foi lindo, colorindo árvores secas que ainda permanecem em pé mesmo com a inundação.
Dormimos em um camping municipal na cidade vizinha, Adolfo Alsina, e além de não pagar nada pela diária (teoricamente o camping só funciona no verão), o jardineiro municipal acrescentou detalhes a história da cidade inundada, nos contou que não houve mortos, mas muita correria para retirar os corpos do cemitério. Mais assustadora do que a cidade em ruínas, foi a noite dormindo no carro. De madrugada, lá pelas 4h da manhã, acordamos com barulhos estranhos que parecia algum bicho (ou monstro pra Luna rs) arranhando a lataria do carro, e na escuridão não conseguimos ver nada pela janela; logo parou, mas a Luna passou a noite em claro com medo. Na manhã seguinte, notamos que deixamos restos de pizza em cima do carro e haviam dois cachorros no camping, que provavelmente eram os “monstros” farejando a comida. Voltando para a estrada, rumo a Bariloche, paramos para abastecer e o frentista nos informou que a água do lago é 10x mais salgada que a do mar! E seguindo sua recomendação: levamos o carro para um bom banho e seguimos viagem, parando apenas para abastecer o carro, sacar dinheiro, comprar empanadas e vinho.

Clique na imagem para ampliar
capítulo 5 – frio
Depois de dormirmos em um hotel em General Roca, paramos para abastecer e comprar os anticongelantes para o diesel, água do radiador e para-brisas, deixando assim tudo pronto para a reta final, pois faltavam apenas 480 km para Bariloche.
Estava tudo tranquilo até que nos depararmos com uma fila imensa de carros, a poucos km antes da subida da Cordilheira dos Andes; era a polícia checando se todos estavam levando correntes para os pneus, e depois de 1h30min na fila, fomos impedidos de seguir, pois nós não tínhamos correntes :(. Estacionamos o carro e tentamos comprar correntes dos carros que voltavam da Cordilheira, sem sucesso, pois o pneu da Defender é bem maior que os normais. Então a Luna foi falar novamente com o guarda, que ao ver que estávamos num carro 4×4 nos liberou em 10min. Nesse tempo conhecemos o Juan, que mora em Bariloche e foi com a gente de carona, pois o ônibus que viajava foi impedido de passar (muita neve na estrada).
Logo nas primeiras subidas e curvas já deu para sentir que o clima estava tenso! Havia nevado muito na noite anterior e os carros se amontoavam no acostamento para colocar correntes, enquanto nós passamos tranquilamente com a poderosa tração do Defender, sem correntes e sem escorregar no gelo. Seguimos assim por 3 horas; em cada curva se descobria uma montanha nova e estradas mais perigosas; nesse mesmo caminho fomos presenteados com um por-do-sol fora de série: o céu rosa mesclava com as cores frias da montanha, ficou impossível não descer do carro para fazer dezenas de imagens daquele momento.
Depois de dirigir mais de 4 mil km em 7 dias, finalmente chegamos ao nosso destino! Bariloche estava coberta de neve, como poucas vezes se viu. Havia polícia por toda parte e muitos bairros sem energia; soubemos que dezenas de voos foram cancelados e estava cheia de turistas que não conseguiam ir embora. A nevasca foi forte!





Clique nas imagens para ampliar
Já era noite quando chegamos, então só tivemos o tempo de jantar e pedir o conselho de uma amiga, Inara, que mora na cidade, sobre onde estacionar para dormir no carro.
Ela aconselhou a não dormirmos aquela noite no carro, pois pela previsão esperava-se 13 graus negativos. Então reservamos um hotel na beira do lago Gutierres. Ao chegarmos veio a surpresa: o senhor Jorge nos informou que estavam sem energia e sem calefação nos quartos; pedimos então para dormir no estacionamento do hotel.
25 abaixo de zero! Na noite mais fria já registrada na história de alguma cidade argentina, estávamos confortavelmente dormindo no carro. A marca histórica afetou Bariloche, aeroportos, argentinos, mas não nossa casinha, que passou no teste e nos deixou tranquilo para as noites que viriam! Nessa noite dormimos com calça e blusa segunda-pele, gorro, saco de dormir e 2 mantinhas por cima. O
Evandro até colocou uma calça de moletom, mas acordou a noite com calor.






Clique nas imagens para ampliar
Na primeira manhã nos encantamos com a cidade coberta de neve! Tiramos um tempo para fotografá-la, estava sol e no dia seguinte boa parte iria derreter. As árvores estavam todas branquinhas, não se via nenhum pedaço de grama que não estivesse coberto, havia muitas crianças brincando nas ruas, escorregando com ski-bunda, muitas fazendo criativos bonecos e outros guerra de neve. Em meio a todo o caos dos aeroportos, ainda via-se muitos turistas se divertindo com aquele cenário raro para a cidade.