Por Nelson de Almeida Filho
Logo que a Land Rover do Brasil se instalou iniciou-se um processo que previa a inauguração das primeiras concessionárias e apresentação de seus veículos ao usuário brasileiro. Depois de décadas de proibição às importações e um histórico de intempéries políticas, uma inflação absolutamente descontrolada e planos econômicos diários, o clima, visualizando qualquer investimento no Brasil era de desconfiança e insegurança. Na verdade, no início da abertura às importações estabelecida por Fernando Collor, muitas montadoras trouxeram seus modelos mais como uma forma de fincarem suas bandeiras em nosso mercado do que ter realmente planos mais ousados. Com os ingleses não era diferente.
As ações da Land Rover do Brasil foram então bastante modestas. Os primeiros carros importados eram os modelos mais simples da linha Defender, sem ar condicionado, direção hidráulica e freios à disco na traseira. Eram modelos de exportação para países africanos e outros do chamado Terceiro Mundo. Alguns 110, 90 conversíveis e até um modelo de pickup 90! Consigo me lembrar de um ou dois Discovery 1 e um Range Rover, que era usado pelo presidente que assumiu logo depois de Richard Morley, o simpático John Byers. Os carros chegavam pelo Porto de Santos e eram conduzidos a um galpão alfandegário no bairro do Ipiranga. De lá seguiam, já devidamente documentados para a sede da AUTO4, no bairro da Lapa, onde eram executados os PDI (Pré Delivery Inspection), ou seja, uma inspeção prévia para checar se o carro estava ok. A Auto4 era uma empresa do Cláudio Romi, velho amante dos Land Rover, que, através de sua experiência, seriedade e estrutura técnica, havia assumido essa tarefa .

Francisco Magalhães (o Kiko) e Milton Tesserolli
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Nessa época meu escritório era no mesmo prédio da Auto4 e trabalhávamos com uma certa sincronia em algumas tarefas. Por isso em muitas oportunidades ajudei a buscar esses Land Rovers novos , conduzindo –os do bairro do Ipiranga até a Lapa. Isso também me ofereceu contato direto com o carro e aproximação com os demais membros da pequena diretoria da Land Rover, com os quais tomávamos café no boteco vizinho.
Foi uma época inicial, poucas pessoas envolvidas e tudo muito simples de se resolver. Onde há flores, há abelhas e soube, com surpresa que um amigo jornalista, Ricardo Panessa, que havia sido editor na 4X4 & Pick-up depois de mim estava sendo contratado para a Assessoria de Imprensa. Como eu trabalhava com eventos também logo fui consultado para auxiliar no primeiro evento no Brasil com participação da Land Rover . Esse evento era um final de campeonato de Polo na cidade paulista de Avaré. A Land Rover não tinha ainda qualquer material promocional, a nao ser uma mala lotada com folhetos vindos da Inglaterra. Herdei essa mala e a tenho até hoje.
Parti então para a confecção das primeiras faixas e banners e para o evento, puxando um Trailler com um dos Discoveries, junto ao Bob Harrisson e Claudio Romi com Defenders e o Colm Maguire com um Range Rover. Esse evento ficou marcado para mim pois no retorno quase sofri um acidente com Discovery X Trailler, quando este entrou em pêndulo em plena Castelo Branco. Não seria um bom começo para mim, mas tudo deu certo e foi só um grande susto.

Colm McGuire

Primeiro Raid com o Defender

Alexandre e Claudio Azevedo, da Britânica,concessionária em Belém do Pará

Expedição Pantanal, lançamento dos Defender para a imprensa especializada
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O trabalho exaustivo de Colm Maguire no campo já estava dando seus primeiros frutos. No primeiro ano foram inauguradas as primeiras concessionárias no Rio de Janeiro e Itaipava, Com Francisco Magalhães e Milton Tesserolli, amigos da Landscape, em São Paulo com o Grupo Sadalla, e gerência do Luiz Fraga, todos aficionados da marca. Depois vieram Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Ribeirão Preto, Natal, Recife e Curitiba, não nessa ordem.
O Ricardo Panessa organizava a primeira apresentação dos carros para a imprensa, e isso aconteceu em uma expedição a ao Pantanal na região do Rio Negro e Aquidauana. Foram convidados os mais influentes jornalistas da área automobilística e adentramos Pantanal vencendo muita lama e alagados. Nessa altura algumas concessionárias já tinham seus carros e a participação delas garantiu um bom comboio. A Land Rover mostrava aos jornalistas e fazendeiros locais aquele dna que já a havia consagrado em todo mundo. Um veículo pronto para enfrentar qualquer tipo de situação de tráfego impossível. Diga-se que anteriormente sempre houve uma certa rejeição por parte da imprensa especializada em publicar matérias positivas sobre os 4×4. É obvio que , em um país onde a cultura automobilística era quase que essencialmente 4×2 isso acontecesse. Mas também por que os modelos comercializados no Brasil até então já não traziam novidades há décadas.

Ricardo Panessa, assessor de imprensa da Land Rover e eu, no evento de lançamento do Defender
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Defenders no Pantanal

O mesmo evento no Pantanal
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A novidade dos 4×4 importados modernos trouxe então à imprensa, uma nova percepção sobre os 4×4. Isso foi facilmente comprovado com o retorno conseguido por esse evento. “ Finalmente um jipe confortável, econômico, veloz e moderno” – escreveram.
Extrapolamos as qualidades dos Land Rover. Todos novatos na marca, muitos com pouca experiência em Off Road, muita água até o capô, travessias de riachos, lama. O resultado foi um calço hidráulico e uma biela fora, que lançou o motor de arranque de uma 110 a uns cinco metros de distância. A solução foi eu rebocá-la , já à noite, uns 150 km com minha noventinha, até Miranda.
Foi uma experiência que os jornalista jamais haviam passado. E foi positiva, pois nenhum deles imaginaria que um jipe pequeno poderia executar essa tarefa, a de rebocar um Jipe grande, com tanta facilidade e destreza em meio a tanta lama e água. Fotos de uma dessas travessias acabou se transformando na primeira propaganda da Land Rover para revistas. Apesar do Ricardo Panessa ter perdido alguns quilos e ganhado alguns cabelos brancos , no final deu tudo certo . A marca estava lançada.