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NA PONTA DO MAPA – OCEANO ÁRTICO

Por Sérgio Medeiros e Eleni Alvejan

Viajar pelo norte do hemisfério em busca de regiões pouco habitadas é um convite a viver experiências e sentimentos que nos fazem pensar ainda mais na vida e agradecer a cada segundo pelo simples fato de poder “realizar”. Quanto mais nos extremos de qualquer lugar, melhor. É aí onde se escondem as oportunidades de desconectar-nos e vermos o mundo de uma forma que não estamos acostumados. A vida se renova! Explorar estas regiões, por outro lado, também nos dá uma melhor ideia sobre o que temos feito com a natureza e o caminho que estamos traçando, se as futuras gerações poderão explorar estes lugares, automaticamente vem o desejo de que ninguém mais apareça por ali, que tudo permaneça intocado, assim exatamente como está. Aí é onde enxergamos melhor o impacto de uma sacolinha plástica jogada na beira da estrada que brilha e destoa em quilômetros na paisagem de cartão-postal. Na estrada, do banco do carro é de onde se observa melhor a vida passar, normalmente onde a mente se esvazia, onde nos envolvemos na paisagem e absorvemos todos os detalhes, costumeiramente sem notar.

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A cerca de 1 ano estávamos acampados em algum lugar nos USA quando recebemos a ligação de um velho amigo que vive em Calgary, no Canadá, nos contando sobre seu desejo de subir até o Ártico Canadense, em menos de 10 minutos de conversa marcamos uma data para a viagem. Simples assim, sem planejamentos, contas, rotas, gastos ou qualquer outro item ligado a uma empreitada dessas. Não importava nada disso, o que nos motivava era a ideia de rever um amigo e compartilhar a vida ao redor de uma fogueira tomando uma bebida quente e contemplando um pouco além as estrelas. Para isso, viajaríamos 10 mil quilômetros, somente pela experiência de viver a vida e não deixar momentos como esse passarem em branco, isso sim importava. Essa é a magia da liberdade, que só entende quem a vive, um sentimento infinitamente prazeroso, onde se abre mão de algumas coisas, mas se que ganha outras imensamente supremas! E assim foi, em setembro passado, quando a natureza começou a mudar sua roupa, pintando a paisagem com as cores do início do outono começamos a subir ao oceano Ártico, partindo do Estado do Oregon nos USA sem um roteiro definido, apenas com uma data para nos encontrarmos com uns amigos que sairiam de Calgary no Canadá.

E como toda viagem tem seus sustos o nosso primeiro aconteceu na fronteira do Canadá, já com o carro na fila da imigração para entrar por “Vancouver”, quando pegamos os passaportes nos demos conta que um deles estava com o visto por expirar dali a 15 dias e faríamos uma viagem de pelo menos 30 dias! Vários países não permitem a entrada se o passaporte tem data de validade igual ou inferior a 6 meses e não sabíamos se isso se aplicava ao visto também. Neste momento a vantagem de viajar de carro se fez presente, em dez minutos de fila resolvemos que cruzaríamos os Estados Unidos até a Flórida, seria uma pena enorme deixar nossos amigos que contavam conosco para a aventura, mas os 50 metros que nos separavam da guarita de imigração não nos davam muitas opções. Com a bússola agora voltada para a praia ao invés da neve, esperamos nossa vez. Após explicarmos tudo ao oficial tivemos a agradável notícia que sim poderíamos entrar! O fato era que quando aplicamos nossos vistos para o Canadá um dos passaportes vencia antes do outro e automaticamente o visto seria mais curto. Por fim, toucas, luvas e meias de volta, bússola novamente apontada para o norte, tocamos para o final do mapa, pisar no Oceano Ártico!

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Chegar até a placa de entrada da “Dempster Highway”, sempre tem um significado especial, ela faz parte da lista desejos de muitos viajantes, na grande maioria Overlanders que cruzam as Américas ou algum oceano, vindos de todas as partes do mundo e obrigatoriamente atravessam o Canadá para atingir seu maior objetivo que é o Alaska.

O Canadá é um país lindo e gelado, com parques nacionais alucinantes, cidades incríveis, lugares praticamente intocados, com maravilhas únicas da natureza que proporcionam uma aventura autêntica, principalmente na região que atinge o Círculo Polar e 4.400 km nos separavam do nosso objetivo, tínhamos um país imenso para cruzar e muito que ver. Em 2016 entramos pela primeira vez ao Alaska e conhecemos um pouco do Canadá, mas faltava muito, desta vez com o fim do verão e um clima mais seco, pudemos desfrutar do azul profundo das centenas de lagos pelo caminho, as montanhas começando a se pintar de branco com nuances inacreditáveis, os animais selvagens desfrutando os últimos momentos antes de tudo ficar frio e congelado. E nesse cenário encontramos nossos amigos David e Peter, que fizeram a grande diferença nessa viagem perfeita, onde tudo saiu bem melhor que todos nós imaginávamos, existem situações na vida que é muito difícil guardar só para si e quando outras pessoas vivem a mesma emoção, se cria um vínculo para sempre, histórias de viagem normalmente são recheadas de sentimentos, onde estar disposto a ceder, aprender, oferecer, dividir, fazem parte do pacote e mais uma vez a frase “A felicidade só é real quando compartilhada” não poderia ser tão genuína.

Hora de seguir ao extremo norte, rumo a lendária “Dempster Highway”, e ao longo do caminho a certeza que se está vivendo uma das aventuras mais memoráveis da sua vida, se faz presente. Explorar a “Alaska Highway”, a estrada que foi construída durante a segunda guerra com a finalidade de ligar os Estados Unidos através do Canadá, que desde a milha zero na cidade da “Dawson Creek”, passando por vários pontos de interesse, como a cidade das placas de “Watson Lake”, até a junção com a “ Klondike HighWay” a estrada que te leva até a pequena e charmosa “Dawson City”, isso já é uma viagem e tanto. Chegar até aí é como voltar no tempo, a pequena cidade já foi a capital territorial de Yukon, mas depois da Segunda Guerra, quando a capital passou a ser Whitehorse a charmosa cidadezinha quase virou fantasma. Hoje, com pouco mais de 2.000 habitantes, mas com um tráfego de mais de 60.000 turistas anualmente que movimentam o comércio, ela é a porta de entrada da “Dempster”, do “Oceano Ártico” e de uma experiência completa.

Chegar até a placa de entrada da “Dempster Highway”, sempre tem um significado especial, ela faz parte da lista desejos de muitos viajantes, na grande maioria Overlanders que cruzam as Américas ou algum oceano, vindos de todas as partes do mundo e obrigatoriamente atravessam o Canadá para atingir seu maior objetivo que é o Alaska.

Do início até seu final após 737,5 km chega-se a “Inuvik”, uma pequena cidade esquimó localizada acima do Círculo Polar Ártico. A construção desta estrada se converteu em um dos maiores desafios de engenharia da história do Canadá pois foi feita sob o “Permafrost”, que é uma espessa camada de solo congelado e que em tese nunca se derrete. Nessa condição térmica o solo permanece todo o ano abaixo de zero desenvolvendo também a “Tundra”, uma vegetação polar que passa a maior parte do tempo coberta pelo gelo, formada em sua maior parte por musgos e bosques de pequeno porte, que no outono completa a paisagem com um verde intenso, salpicado com flores multicoloridas.

Exploramos muito o “Tombstone Territorial Park”, uma cadeia de montanhas e fabulosos vales bem ao sul da “Dempster”, talvez essa não seja a parte mais solitária da estrada, mas certamente é uma das mais bonitas, aproveitamos cada quilômetro numa sequência sem tempo, descobrindo pouco a pouco todas as sensações que uma viagem como essa pode oferecer.

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Para atingir as remotas cidades do fim do mapa é preciso cruzar o “Mackenzie Delta”, duas travessias de “ferrie boat” fazem parte deste percurso e dependendo da época do ano é preciso consultar o trajeto, já que os rios se congelam totalmente no inverno se transformando na incrível estrada de gelo.

Numa estrada de condições tão diferenciadas o cuidado ao dirigir é essencial, com trechos traiçoeiros onde a combinação gelo, rípio afiado, bordas com pedras soltas, vento e lindas paisagens pode ser fatal, mesmo que durante um bom trecho nenhum carro apareça, o trafego de veículos pesados é comum e normalmente cruzam rapidamente levantando muito pó e principalmente pedras. Pneus em boas condições são fundamentais, campers longos e pesados poderão ‘’sofrer’’ em alguns trechos e carregar combustível extra pode ser necessário, já que os serviços quase não existem e estão em pontos de parada quase obrigatórios.

A partir de “Inuvik” são mais 137 km pela estrada mais controversa, cara e difícil de ser construída do Canadá. Foi aberta ao público apenas no final de 2017 dando acesso por terra ao povoado mais remoto do Ártico Canadense, essa estrada chamada de “Tuktoyaktuk Highway” é realmente panorâmica, não só pela sua beleza única caracterizada pelos “Pingos”, que são depressões, ou pequenas lagoas formadas após o derretimento do gelo, mas pela sensação de estar lá, onde todas as expectativas estão a prova ampliando os sentidos.

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A cidade de “Tuktoyaktuk” no inverno se transforma num deserto congelado com temperaturas que para nós seriam humanamente impossíveis de viver, com pouquíssima luz do dia, não é bonita nem turística, é a última do mapa e única forma de chegar com o carro ali, na areia da praia do Ártico, um mar cinza e com muito vento. É um mini povoado com costumes e tradições de seus antepassados, de gente que viverá grande parte da vida isolado numa das mais remotas localidades do Canadá, mas que atrai, nós viajantes, de forma hipnótica e curiosa. Num momento como esse é que entendemos o real sentido da realização e da gratidão. Sim, estamos aqui, chegamos no fim do hemisfério norte de carro, conseguimos!

Viajar pelos extremos também te conecta a experiências únicas e fenômenos que só existem em certas partes do planeta, que fazem que nos sintamos muito privilegiados, a “Aurora Boreal” é uma delas e o território Canadense é considerado o melhor lugar da América do Norte para admirar a temporada das “Auroras”, para nós esse também foi um dos motivos desta viagem, a oportunidade de estar no momento e no lugar perfeito para essa contemplação, que é setembro na região de “Yucon”. Enfrentar as baixas temperaturas também fazem parte deste espetáculo da natureza e estar preparado para isso faz grande diferença na viagem. Essa região norte do Canadá também abriga a vida selvagem mais interessante e atrativa do país, no seu ambiente legítimo e certo cuidado também faz parte, mas é impossível resistir a fofura de um ursão parado a beira da estrada comendo flores e pronto para ser fotografado.

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Normalmente, no retorno de uma viagem tudo foi visto e já não é tão interessante, mas aqui isso não se encaixa, voltar é completamente diferente, com tudo em outra perspectiva e uma paisagem totalmente transformada. Os Lagos congelados, as gigantescas montanhas brancas, a chuva se transformando em gelo frente aos olhos, parte da estrada já coberta pela neve. Uma mudança total na paisagem e no clima nos dez dias que andamos por ali.

Temos que confessar que adoramos estar ali no verão de 2016 pela primeira vez, quando fomos ao Alaska, nesta ocasião pudemos contemplar o sol da meia-noite, quando ele é visível quase as 24 horas do dia e não chega a escurecer completamente, com temperaturas bem agradáveis, foi uma viagem de descobertas. Mas, nesta segunda vez foi simplesmente surreal, a “Aurora Boreal” foi uma das coisas mais fascinantes que vimos na vida, muita gente acha que fazer a mesma viagem duas vezes é perder tempo, com tantos lugares que existem para conhecer, mas neste pedaço do mundo tem tanto que ver que jamais uma viagem será parecida com a outra.

A viagem toda foram exatos trinta dias e rodamos os 10.000 km esperados, dizem que você só conhece o Ártico no dia que estiver ali no inverno, o pior de tudo isso é que ficamos com isso engasgado, um dia vamos ter que conferir. Parece que foi só um até logo porque dirigir por essa tal estrada de gelo deve ser uma experiência e tanto!

Quem sabe!

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