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CAMEL TROPHY 1989 – PARTE I

A saga dos brasileiros na mais dura edição da prova de offroad

Por Reinaldo Junqueira | Fotos Cláudio Larangeira

 

 

E tudo começou com uma ficha de inscrição na revista Manchete

Duas semanas inteiras da mais dura aventura em 4×4 que o mundo podia oferecer. Chuvas torrenciais em uma floresta tropical onde a lama alcançava os joelhos, as temperaturas eram altíssimas e as condições eram extremas as quais os representantes do Brasil, Ricardo Simonsen e Afonso Celso Baldrati foram submetidos. Era o Camel Trophy de 1989.

Como tudo começou para eles
Afonso Celso Baldrati, ou só Baldrati, como prefere ser chamado, estava pescando no Mato Grosso e havia comprado uma revista “Quatro Rodas” quando leu uma reportagem sobre o Camel Trophy, que estava abrindo as inscrições para as seletivas de 1989, pensou: “vou ter que entrar nesse negócio aí”, só que lógico para entrar não era bem assim. Quando voltou para casa mandou a inscrição com fotos e todos os detalhes de tudo que ele já tinha feito e muito mais, ele já tinha corrido com automóvel fora de estrada lá no Paraná, no Campeonato Paranaense de FUSCA CROSS. Certo dia recebeu a ligação da organização do Camel, era uma voz feminina, dizendo: “você é um dos vinte e dois selecionados”, ele ficou em choque, Baldrati disse: “nunca uma mulher tinha me arrepiado em tão poucas palavras!” era o início do sonho para ele.

Já para o Ricardo Simonsen, que saiu das minas de estanho para o Camel Trophy a história foi bem diferente, ele tentou participar pela primeira vez nas seletivas do Camel de 1987 para Madagascar.

Seu primeiro contato com o Camel Trophy foi numa sala de espera para uma cirurgia no joelho em 1982 e viu na revista Manchete uma foto de página inteira de um comboio do Camel Trophy, e disse: “O que que é isso? Eu vou fazer isso um dia! O tempo passou, ele, que é engenheiro de minas, foi morar em Rondônia, para trabalhar em mineração por lá e voltou para São Paulo em 1986. Aí surgiu a chamada para as inscrições do Camel de 1987 e foi aí que se inscreveu, mas isso estava lá gravado no subconsciente mandando energia desde o dia que ele esbarrou naquela foto de página inteira da revista no início da década de 80, “muito forte aquela foto, me deu vontade de participar”, disse ele, e quando dá certo, você fala Bingo! No ano em que preencheu a inscrição em 1987 foram 200 mil inscrições, chamaram 120 para entrevista na McCann Erickson, que era agência que cuidava dessa parte; desses 120, separaram 22 para fazer a primeira eliminatória que era ir de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, depois São Paulo, tudo por estrada de terra com Jeeps Willys rebocando uma carretinha com 4 pessoas em cada Jeep, foi o caos, segundo ele. Desses 22 participantes separaram 8 para fazer a segunda etapa das eliminatórias de Curitiba a São Paulo, passando pela via do telégrafo e buraco do Camel. Ele não conseguiu se classificar, desses 8 participantes saíram os três classificados e desses três, a dupla escolhida foi a do Gilberto Castro e o Paulo Bergamaschi que representaram o Brasil no Camel em Madagascar, ficaram em 7˚ lugar na classificação geral, a melhor classificação até então de uma equipe brasileira.

Em 1988 o Brasil não participou das provas do Camel Trophy, em 1989 ligaram para Simonsen da” McCann Erickson”, ele não havia feito a inscrição para a prova, e disseram a ele que naquele ano a prova seria na Amazônia. Como ele tinha morado e trabalhado na Amazônia durante 3 anos, eles acharam que aquela prova era dele! O Ricardo acabou entrando direto nas finais das eliminatórias. Foi direto para o Batalhão dos Toneleiros lá em Campo Grande-MT, ficaram 3 dias por lá fazendo as eliminatórias e foi lá que conheceu o Baldrati. Ou seja, tudo completamente diferente das provas de 1987 que foram 10 dias e depois mais 5 dias de eliminatórias. Dessas eliminatórias de Campo Grande-MT saíram Ricardo, Baldrati e Francisco Ferraz Magalhães, empresário do Rio de Janeiro.

Todas as provas foram feitas em Jeeps Willys, que é o que se tinha na época, Land Rover só se ouvia falar, as importações eram proibidas, alguém tinha um ou outro antigo, mas ter Land Rover para usar, não rolava!

Das eliminatórias nas ilhas Canárias
Então lá foram os três classificados que até então, não se conheciam para a segunda etapa das eliminatórias nas Ilhas Canárias, um arquipélago Espanhol no Oceano Atlântico e, que na opinião dele, houve um erro de cálculo dos Ingleses porquê eles puseram num acampamento com infraestrutura os espanhóis, argentinos e brasileiros para fazerem a seleção e queriam que eles conversassem em inglês entre eles.

O fato de nunca terem andado nos Land Rovers, era uma desvantagem para eles que só foram ter contato com os veículos com direção na direita nessas eliminatórias.

Nas Ilhas Canárias pegaram muita chuva, muito frio, os equipamentos deles eram totalmente inadequados, ninguém tinha casaco impermeável, eles se molhavam até os ossos por lá. As provas não foram muito difíceis, alguns obstáculos, barrancos, uso de guincho, os ingleses observando tudo, algumas coisas para fazerem em equipe com os argentinos e aí nessa hora eles começavam a falar em “portunhol” e os Ingleses queriam que eles falassem em inglês, “mas ali no sufoco você acaba recorrendo ao que é mais natural” lembra o Simonsen .

A seleção ali foi mais da observação dos ingleses de como os três brasileiros se comportavam, tentando identificar quais eram as qualidades individuais para então definir quem seria dupla brasileira.

A equipe brasileira então foi formada pelo Ricardo Simonsen como navegador e o Baldrati como piloto, juntaram-se a equipe o fotógrafo Claudio Larangeira, que já fotografou muitos Camels e o Roberto que era da assessoria de imprensa da R. J. Reynolds.

Ao voltarem das eliminatória nas Ilhas Canárias, Simonsen e Baldrati foram em dois finais de semana para São Paulo, na Serra da Mantiqueira junto com o Nelson de Almeida, coordenador das eliminatórias no Brasil, treinar com um Jeep Willys. Para se ter uma ideia, da diferença de veículos, para esterçar o volante do Jeep Willys usado nos treinos tinha que dar meia volta para começar a virar, então não tinha nem como comparar os dois veículos, lembra o Baldrati, o piloto selecionado da dupla.

Da chegada na Amazônia e os detalhes da competição
A chegada em Alta Floresta foi num Boeing 737 fretado só com Camel Trophy lá dentro, foram recebidos com banda Municipal, todos os participantes receberam seus carros no Aeroporto, todos eles estavam com as bandeirinhas com o nome de cada um dos inscritos nas laterais, houve um jantar e no dia seguinte zarparam!

Tudo aquilo foi um choque para a dupla de brasileiros, com o tempo foram se assenhorando da situação, no começo era estranho, lembra o Simonsen, por exemplo: “as instruções das provas especiais eram naquele “inglês-escocês” do Iain Chapman (diretor do evento), ele tinha um sotaque meio confuso, as planilhas eram estranhas, nunca havia participado de competições off Road, a minha experiência era porque o meu dia a dia em Rondônia era no barro, essas coisas eram novidade para mim”.

Só o fato de serem os escolhidos já era uma vitória. Eles não tinham treinado num Land Rover. Nas primeiras provas especiais quando ficaram em terceiro lugar eles sentiram que dava para ganhar aquilo. O Baldrati já estava querendo chegar em primeiro de qualquer jeito, sabia que dava. “O nosso condicionamento físico naquela época estava excelente para enfrentar aquelas situações a que fomos submetidos”, porque sem condicionamento você não aguentaria uma semana ali. Foram 17 dias de prova.

"esse carro tem que levar vocês até o final. Se der pau, é problema de vocês."
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