A bordo de um LR Discovery 2 Td5. Apontar para o alto de uma colina ao fim de onde os olhos alcançam, engatar a reduzida, prender o cinto e acelerar! Usar de toda tecnologia e potência projetadas nesse veículo para qualquer terreno. Entrar onde o controle de tração te tira, atravessar rios, subir estradas íngremes, descer pirambeiras sem medo.
Por Alexandre Diniz
Marcar no mapa um ponto longínquo, estipular ali um desafio pessoal. Viajando sozinho, e com a ideia de buscar o novo. Viver um sonho, uma aventura.
Pegar a estrada e seguir rumo ao desconhecido. Sentir, respirar, conhecer novas culturas, “tentar entender os diversos mundos deste nosso mundo”. Esses que a cada poucas horas dirigindo por retas intermináveis se transformam. Rir muito de nós mesmos, as vezes quase chorar, e ai rir novamente! Fazer novos amigos, “deixar novos amigos com a promessa e real vontade de em breve voltar”.
Chegar a lugares pouco conhecidos, viver intensamente cada nova experiência. Voltar para casa com o carro imundo e cheio de areia e pó. Encontrar uma pedra e tentar imaginar como ela veio parar ali. Ter dó de jogar fora a areia dos tapetes e pensar com carinho sobre o assunto.
Essas pedras, essas areias, parecem ser o motivo que nos leva mais longe. Que nos impulsionam a usar a criatividade, que com um pouco de coragem, de planejamento e vontade, nos colocam em lugares inimagináveis. Afinal, isso é viajar!
No último mês de julho 2018, em uma viagem pela região da patagônia Argentina, já fronteira com o Chile, eu pude vivenciar mais uma vez tudo isso. Não vejo este tipo de viagem como “expedição”, mas sim como uma forma de “experiência”. Onde os desafios, as aventuras e dificuldades são em grande maioria previsíveis e impostas por ela mesma.
Minha ideia de viver essa “experiência” nasceu de algumas viagens passadas pela região. Estive por 4 vezes na patagônia, viajando de um extremo a outro, subindo e descendo a cordilheira, entrando por vales e estradas onde mal passava uma motocicleta.
Sempre estive lá no verão e ficava imaginando como seria estar ali no inverno. Viajar por esse mesmo terreno com temperaturas ainda mais baixas, redescobrir a região com novos desafios. Desse pensamento, da ausência de neve e gelo no Brasil, de condições extremas onde só a região da Cordilheira oferece, nascia o projeto “Discovery Pehuenia”.




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Diferente do tradicional que se encontra no Brasil, a condução por gelo e neve é considerada uma das mais técnicas. Na neve você não vê o que tem por baixo, não imagina onde fica a estrada. Passa por erosões profundas e só descobre quando já está encalhado. Passa por lagos congelados, pedras camufladas, árvores caídas e tufos de vegetação que em outras condições seria apenas desviar. A falta de piso, de terra firme, são constantes. Acelerar demais também é um problema pois o carro patina e o assoalho logo “gruda no gelo”, não sendo possível sair por conta própria. Nesse último não adianta cavar, pois dependendo da região, da situação climática acumulada por dias e meses de neve, você tem até 1 metro de gelo para cavar até encontrar a terra. O uso de guincho, de pá, pranchas de “desatolagem”, correntes nos pneus é obrigatório.
No gelo a condução também é bastante difícil, o piso é duro, onde existe asfalto normalmente possui uma fina camada de gelo. Essa é muito lisa e escorregadia. É difícil caminhar sem escorregar. Já com o carro em movimento o maior problema é conseguir frenar. Veículos com sistema de freios ABS não permitem o travamento das rodas. O que torna a distância de frenagem muito longa. Como regra, determinei distâncias adequadas, considerando que a 40km/h precisava de quase 40 metros para parar. A 60km/h quase 60 metros e nessa regra mantive uma velocidade e condução prudente.
Para veículos com ou sem tração 4×4, mas sem ABS a condução é ainda mais difícil. Somente se consegue alguma segurança com o uso obrigatório de correntes. Os carros sem o controle eletrônico de frenagem são de fácil perda de direção, pois uma vez acionado os freios ele simplesmente trava as 4 rodas e derrapa sem possibilidade de controle. Não importa ser 4×4, as rodas travam iguais.
Para o planejamento desse tipo de viagem o preparo do carro vai além da revisão de mecânico. Você precisa contar com a sorte, com a prudência e respeitar as condições climáticas. Imaginar e prever todas as situações, afinal você está sozinho e não encontrará fácil um mecânico ou mesmo um borracheiro. As vezes pode demorar dias! Você tem um longo deslocamento por desertos, passando por montanhas e situações fora do convencional. O carro permanece ligado por 10, 15 horas. As temperaturas são extremas, de 40 a -15 graus. Tudo deve ser pensado.
Para condição de gelo e neve, é necessário ter correntes para os 4 pneus, um bom guincho, pás para cavar, pranchas rígidas, cintas longas, além de uma boa âncora de gelo. Essa âncora é a única possibilidade de ancoragem do carro para puxar com o guincho quando você atola em uma planície.
Com o pré planejamento estudado e carro preparado, chega a hora de pensar onde ficar, o que conhecer, e experimentar. Visitar uma estação de esqui, tentar se equilibrar em uma prancha de snowboard, chegar a lagos e cartões-postais, comer bem, dormir bem, viver a gastronomia local. Para tal, após muitas pesquisas cheguei a um lugar chamado de “Villa Pehuenia”, um pequeno vilarejo encravado próximo à fronteira da Argentina com o Chile.
Villa Pehuenia é uma vila e município na província de Neuquén no sudoeste da Argentina. A cidade está localizada na margem norte do Lago Aluminé e sua economia é baseada principalmente no turismo. Um povoado relativamente novo. Ainda pouco conhecido pelo turismo brasileiro. O povoado tem o nome da árvore do pehuén ( Araucaria Araucana ), uma espécie em extinção encontrada no limite mais meridional da cordilheira.





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Preocupados com a preservação da região que no passado foi vítima desenfreada do corte de árvores Araucanias, curiosamente estão utilizando de mudas do nosso pinheiro araucária brasileiro para ajudar no reflorestamento. É um projeto ambiental audacioso e muito bem assistido por biólogos e especialistas na área. Ali era a aldeia indígena Pehuenia até 1989. Sua população era de 155 pessoas naquela época. A aldeia se tornou Villa Pehuenia e a população cresceu para 1.611 em 2010, o aumento atribuível ao aumento do turismo. O povo indígena Puel (de origem Mapuche) continua a manter uma comunidade na região e detém o controle da estação de esqui, sendo a única comunidade indígena da américa do sul a controlar e receber receita desse empreendimento.
A aldeia parece ser um lugar secreto entre colinas e lagos. Durante o inverno as praias de areia branca escondem-se embaixo da neve e a floresta da Patagônia com seus bosques de pinheiros vira a estrela principal.
No verão o lago é lugar de pescar, de aproveitar diversos esportes aquáticos, as possibilidades ali são infinitas, Estas águas são perfeitas para a prática de rafting, caiaque e bote, a infraestrutura é boa, você pode acampar, ficar em hostel, em hotel. E não é apenas a paisagem que encanta, é o seu estilo “aldeia de montanha”, com suas casas de madeira e pedra, tem um estilo europeu.
A bordo de um Land Rover a região é o paraíso! As estradas levam a todos os lados, você pode fazer uma circunferência no lago Aluminé, seguir até a fronteira com o Chile pelo passo habilitado e seguir para novos destinos.
No inverno, fugindo do convencional, existe a travessia até a fronteira com o Chile pelo chamado “Passo del Arco”. Este já em desuso e de difícil acesso. Essa travessia normalmente é organizada por agências de turismo 4×4 com guias especializados. Esse foi o ponto alto da viagem. Chegar ao passo do Arco, com um Discovery 2, a cara e a coragem. Uma aventura de 2 dias que rendeu belas histórias e experiências. Viajando sozinho, convidei 2 hóspedes do hostel para fazer companhia e assim com algumas informações locais segui na direção por uma rota imaginária. Nesse objetivo foram 40 quilômetros entre montanhas nevadas, gelo e inúmeros obstáculos. Tal aventura rendeu muitas risadas no grupo “Ayuda Land Rover” com meu pedido bem humorado de resgate. “Amigos, o que é um ponto preto abandonado em uma montanha branca”. Sim, em certo ponto da travessia e ao ser pego de surpresa por uma forte tempestade foi necessário abandonar o carro atolado e no dia seguinte formular um resgate.
Esses 2 dias na montanha dariam um livro. Avançando com prudência e cuidado já a uns 35 quilômetros dessa travessia, e após atolar o carro pela segunda vez, decidi voltar. Quando fiz a volta fui surpreendido com faróis dando luz alta em minha direção. Estavam longe, mas seguiam em meu caminho. Era um argentino viajando com esposa e filhos. Também com o projeto de desbravar aquela rota. Convencido por ele decidimos seguir em 2 carros até o marco fronteiriço.
Vivenciar cada nova cultura, experimentar o melhor desse mundo e ainda sentir-se abraçado e acompanhado por dezenas de “landeiros” desse mundão é realmente emocionante!
“Faltavam apenas 5 quilômetros de gelo e neve. Teoricamente fácil pois estávamos em 2 carros.”
Esses 5 quilômetros, sem dúvida, foram os mais difíceis. Mais de 6 horas lutando contra o gelo e a neve. Avançando metro a metro, onde o carro da frente atolava e o segundo puxava com guincho. O Segundo atolava e o primeiro atolava puxando o segundo. “Vamos Palear”! É a tradução para “vamos cavar”. Em meio a bom humor e muitas risadas essa aventura rendeu experiências de amizade e companheirismo que fizeram valer a “roubada”.
Perguntaram a mim se faria tudo de novo e a resposta foi a estilo aventureiro: “Se eu levar mais pás sim!” (Risos) Pois enquanto eu e o Argentino cavamos para retirar os carros, outros 5 riam com a situação! “No brasil um cava e 2 olham, e na argentina, 3 ? Por fim nos demos conta que mais riamos, do que conseguiamos “palear”!
De volta ao povoado de Villa Pehuenia, existe um restaurante chamado “La Fabrica”, esse é um estabelecimento que lhe oferece a melhor comida, cafés, vinhos e pratos exóticos da região. O proprietário Juan Carlos também é um “landeiro” de carteirinha. Possui alguns defenders e também um Discovery 1 com “orugas”, (esteiras). Um lugar que é parada obrigatória e super bem recomendada. Foi ele quem organizou todo o apoio para o resgate do carro no dia seguinte.
Resumindo:
Viajar pela Patagônia cruzando a Argentina de leste a oeste, com suas retas intermináveis, paisagens desérticas e povoados cravados em meio ao nada. São contrastes de tirar o folego, é uma viagem inesquecível. Vivenciar cada nova cultura, experimentar o melhor desse mundo e ainda sentir-se abraçado e acompanhado por dezenas de “landeiros” desse mundão é realmente emocionante!
Nessa viagem, a bordo de um Discovery 2, com 8500 quilômetros rodados em 23 dias, nenhuma quebra ou manutenção mecânica, com o uso de todas as funções projetadas pelo carro ao limite, e sem medo posso afirmar que viajar com um LR Discovery 2 te coloca um mundo de possibilidades, independente do modelo, basta planejar e ir. Fica aqui sem dúvida um convite a novos viajantes.
Onde ficar em Villa Pehuenia
El solar del Mahuia, O proprietário Alejandro Lafuente é integrante do grupo LR Argentina e oferece descontos e proporciona uma experiência inesquecível, conta com chalés com vista para o lago Aluminé capacidade de 2 a 8 pessoas. Maiores informações www.elsolardelmahuida.com.ar
Hostel Andino Villa Pehuenia, Um lugar com ótimo custo benefício! A receptividade e atenção sempre presentes pelo proprietário e família fazem você se sentir em casa. Neste lugar “estilo albergue” e que pode ter seus quartos reservados para famílias ou amigos, com uma vista privilegiada das montanhas. Maiores informações www.hostelandino.com.ar
Onde comer bem em Villa Pehuenia
Restaurante La Fábrica de Sabores y Recuerdos. Um lugar de parada obrigatória! Aconchegante e que vale ficar horas experimentando pratos típicos, cafés, entre ótimas conversas com o Juan Carlos Barbosa, integrante do grupo LR Argentina, amante do mundo 4×4. Ele também pode indicar o que fazer de melhor pela região.
Site oficial de Villa Pehuenia – Neuquén – Patagônia Argentina
Alexandre Diniz: alexandre@limitesdaamerica.com.br