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MONTADO NO BRASIL. E COM UM TOQUE CRIATIVO

Land Rover Serie I Hardtop "made in Brasil"

Por Eduardo Rocha | Fotos Kriz Knack

O ano era 1947. O diretor técnico da Rover, Maurice Wilks, e seu irmão,

Spencer Wilks, diretor executivo, estavam impressionados com a boa performance e versatilidade que um Jeep remanescente do período de guerra, que utilizavam em sua casa de campo em Anglesey apresentava ao enfrentar estradas de terra ruins e muita lama. Na época, surgia uma crescente demanda por esses veículos ex-militares, assim como pelos tratores leves Ferguson, produzidos pela Standard Motor Company, de Coventry.

Como um bom observador do mercado, Maurice teve certeza de que um pequeno utilitário agrícola 4×4, com capacidade para transportar pessoas e ainda capaz de executar algumas tarefas numa fazenda, como transportar cargas ou fornecer tração para implementos (inclusive arados), seria indubitavelmente um sucesso.

O primeiro protótipo foi construído sobre um chassis Jeep com eixos, molas e motor Rover. O Land-Rover (com hífen, que durou até 1978), como Maurice Wilks começou a chamá-lo, deveria ser simples em termos de projeto, de materiais, de processos de fabricação e de reparos. Mas estruturalmente forte.

Foi construído então o protótipo conhecido como “Centre steer” (com volante ao centro do veículo) e apenas um assento, também central, no outono de 1947. Esse protótipo desapareceu (provavelmente destruído) só restando uma única réplica, construída posteriormente com base em especificações e medidas.

Em 1948 o primeiro Land Rover Série I, com entre-eixos curto (80 polegadas) foi apresentado ao público no Amsterdam Motor Show.

A produção inicial foi de 3.048 unidades, passando a 8 mil em 1949 e 16 mil em 1950. Rapidamente, já estavam sendo produzidos mil unidades por semana.

Em outubro de 1948, o fabricante de carrocerias de madeira Tickford desenvolve uma carroceria com estrutura de madeira e chapa de alumínio, para sete pessoas, dando ao Land Rover um caráter de veículo de lazer. Não foi exatamente um sucesso e somente 641 unidades foram produzidas. Enquanto isso, as vendas do primeiro Land Rover seguiam de vento em popa. E Ransom Harrison, chairman da Rover na época, disse a seus acionistas, considerando pedidos de informação e vendas efetivas: “a demanda por esse veículo deve nos fazer atingir logo, ou até mesmo exceder, nossa capacidade de produção”.

1949, São Paulo, Brasil.

O empresário Mario Barros do Amaral inicia a importação dos veículos Land Rover Série I em suas versões de teto de lona e Tickford em regime CKD (desmontados). O modelo com teto de lona foi bem sucedido mas, como na Inglaterra, o Tickford, não. Era caro. Mario então decide usar sua criatividade para oferecer ao mercado brasileiro um hardtop (teto rígido, em metal) com preço acessível. Decidiu, para isso, nacionalizar algumas partes.

A linha de montagem era na avenida Presidente Wilson, no bairro da Mooca.

No alto, um anúncio de jornal da Mario Barros do Amaral, onde aparece a versão Tickford do Serie 1
Placa do importador

Em 1957 chega ao Brasil, desmontado, o Série 1 retratado nesta matéria. Como ele, alguns outros devem ter recebido o teto rígido “made in Brazil”, mas tudo leva a crer que esse é o único exemplar remanescente com esse toque brasileiro. Na maioria deles, o aço sucumbiu às condições ambientais.

Da cintura para baixo, alumínio inglês, original de fábrica. Da cintura para cima, chapa de aço montada pela indústria nacional Carraço S/A, de São Bernardo do Campo, que era líder de vendas na área de capotas de aço e modificações em veículos, principalmente Willys. Somada ao fato de ter sido montado no Brasil, a inclusão da capota de aço adiciona uma boa dose de raridade ao modelo, que já foi documentado inclusive por publicações britânicas.

Hoje, o carro se encontra exatamente como era há décadas, sem restauração. Segundo o colecionador, é uma tendência mundial deixar os veículos 100% originais, com as marcas de uso deixadas pelo tempo.

O Série I foi concebido para ser simples e durável. Sem linhas extravagantes, todas as partes da carroceria funcionam como módulos que podem ser facilmente substituídos, característica que existe até hoje nos Land Rover Defender e que provou ser muito funcional nesses 70 anos de existência.

Seu entre-eixos é de 88 polegadas (há também uma versão de 109 polegadas). O motor é um 4 cilindros a gasolina com 1997cc, 52hp a 4250 rpm e torque de 14,1 m.kgf a 1.500 rpm. O bloco e o cabeçote são de ferro fundido. A admissão é no alto do cabeçote e o escape na lateral. A alimentação é feita por um carburador Solex de corpo simples. O câmbio manual de 4 marchas à esquerda, a alavanca da tração ao centro e a da reduzida à direita, no assoalho. Nele, já havia a possibilidade de usar a tração nas 4 rodas, sem usar a reduzida.

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Vista traseira do hardtop construido pela Carraço
Vista do interior e tanque de combistível, sob o banco do passageiro
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O sistema de roda livre era da marca Berymatic, fabricado em São Paulo, também para os Willys
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O sistema de roda livre era da marca Berymatic, fabricado em São Paulo, também para os Willys.

A suspensão, tanto dianteira quanto traseira, tinha eixo rígido, feixe de molas e amortecedores telescópicos.

No interior, para lá de espartano, apenas três bancos individuais voltados para a frente e dois laterais na parte traseira. O tanque de combustível fica embaixo do banco dianteiro direito. Os limpadores de para-brisa são independentes, elétrico (Lucas) para o motorista e manual (manivela) para o passageiro. Mario Barros do Amaral introduziu um pequeno refinamento no Série 1: mandou produzir uma tampa com chave para aquele compartimento vazio na direita do painel, um legítimo porta-luvas.

A capota produzida pela Carraço, quase rústica devido à sua produção artesanal, tem também seu charme, pois conserva as linhas tradicionais dos Série 1 de teto rígido, mas introduziu os vidros que abrem na vertical (com manivela) e não como nos britânicos, que apenas se deslocam na horizontal. Outra solução adotada foi a colocação de duas saídas de ar basculantes nas laterais traseiras, para a saída do ar quente do interior do veículo, o que com certeza ajudou muito neste Brasil de muito calor.

De 1999 a 2005 a Land Rover montou o Defender no Brasil, com algumas peças nacionalizadas. Foi a segunda vez na história da marca. E recentemente, em Junho de 2016 a história se repetiu, com a inauguração de instalações de alta tecnologia em Itatiaia, no Rio de Janeiro. A primeira fábrica da montadora fora do Reino Unido, onde são fabricados o Range Rover Evoque e o Discovery Sport.

Land Rover Serie I

Ano: 1957

Motor: 4 cilindros com 1997 c.c.

Combustivel: Gasolina

Potência: 52 HP a 4.000 R.P.M.

Torque: 14 Kgm a 1.500 R.P.M

Transmissão: 4 velocidades, manual com reduzida

Tração: 4×4 ou traseira, roda livre na dianteira

Embreagem: disco seco simples

Freios a tambor com acionamento hidráulico

Suspensão: molas semi-elípticas

Distância entre eixos: 88 polegadas

Comprimento: 4.400 mm

Largura: 1.588 mm

Altura: 1.930 mm

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