A saga dos brasileiros na mais dura edição da prova de offroad
Por Reinaldo Junqueira | Fotos Cláudio Larangeira
Nós contávamos com um carro de oficina com peças de reposição. Em uma ocasião, alguma equipe danificou uma grande peça que chegou depois de helicóptero e os mecânicos da Land Rover trocaram ali mesmo. Teve muito tombamento de carro, o nosso, tombou parado, apenas escorregou, conta Simonsen.
Com relação ao abastecimento, os Land Rovers tinham dois tanques de combustível com 80 litros cada, e levavam mais 80 L, em galões de 20 L no bagageiro, então 240 L de combustível o que era uma boa autonomia. De vez em quando abasteciam nos garimpos, todos ficaram horrorizados com o preço do diesel, que devia ser 3 vezes o preço de tabela e também horrorizados pelo fato da transamazônica ser uma rodovia federal brasileira e estar naquela condição.
Sobre as Equipes e o “Team Spirit Awards”
Unanimidade entre a dupla dos brasileiros era que os carros que mais davam trabalho eram o dos Japoneses e o da oficina. Simonsen lembra de tirar o Land Rover dos japoneses de um buraco e nenhum deles saírem de dentro, nós conseguimos tirá-los, eles engataram primeira e caíram novamente no mesmo buraco. O Baldrati queria “pegar eles”! Acabamos indo embora e deixamos para os próximos que passassem para ajudá-los.
Em outra situação um pouco semelhante eles caíram em outro buraco que ninguém caiu e estavam fechando a Estrada. Não dava para passar com eles ali, ficamos um tempão para conseguir tirá-los. Eles eram terríveis!
Em outra situação, novamente com a equipe de japoneses, o Baldrati entra no carro deles para tentar tirá-los, havia tanta fumaça lá dentro que ele não acreditava naquilo, de noite, baita escuridão, ele não entendeu nada. Quando olhou para trás um dos japoneses da equipe estava deitado no banco com um daqueles “espirais verdes” para espantar mosquito, tinham quatro no chão acesos, eles com medo do mosquito da malária.
Os suíços filtrando água com canudinho e nós bebendo água de rio, nem aí para essas coisas! Nós tínhamos um psicológico mais preparado neste sentido, eles estavam mais perturbados com tudo aquilo, pois estavam na selva amazônica. Para nós era quase que a mesma coisa de estar na Mata Atlântica, relembra Simonsen.


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Os Espanhóis se encantaram com uma jararaca Verde e puseram-na dentro de uma garrafa de vidro. Estavam levando-a dentro do carro. Numa prova especial eles capotaram e na hora que estavam lá meio zonzos alguém fala: “e a cobra?’’, se mexe ou não se mexe? A garrafa por sorte não quebrou, mas a situação foi Inusitada. Animais de grande porte você não vê num comboio barulhento desse, conta Baldrati.
Durante o comboio, até o final, todos tiveram que por a rivalidade de lado pois havia um outro prêmio muito cobiçado o “Team Spirit Awards”, o “Troféu Espírito de Equipe” que é votado pelo grupo, mas quem decide é a organização, qual foi a equipe mais prestativa e sociável durante as duas semanas de prova. Quem ganhou neste ano foram os belgas Peter Denys e Frank Dewitte.
Em uma visita ao Brasil depois do Camel o Jim Slade (chefe de trilha) contou ao Simonsen que eles estavam em primeiro no “Team Spirit”, mas como também estavam em segundo na competição com chances de vitória deram o prêmio aos belgas.
Foi justo darem o prêmio a eles, junto com os espanhóis e argentinos, formavam as equipes mais Solidárias. Já os turcos, não eram tão solícitos. Os japoneses dentro do carro o tempo todo, a porta do 110 deles toda escrita em ideogramas e apenas um deles falava em inglês e bem ruim. Acho que as instruções das provas especiais eles não entendiam nada e as inscrições nas portas, segundo o que um deles me disse, era “eu quero ir embora, me tirem daqui”.comenta Baldrati. Eram três japoneses com medo do mosquito de malária.
As provas especiais e a última prova que decidiria a colocação dos brasileiros.
As provas especiais, conhecidas como “Special Tasks” eram curtas, e concebidas para testar a habilidade de conduzir veículos 4×4, e não rapidez. Duravam em média 6 horas. Eles preparavam a pista e colocavam as balizas. Tinha prova que precisava pegar alguma, coisa atravessar rio a nado ida e volta. Teve uma que tinha um subidão e o carro começou a patinar e eu precisei sair do carro para pegar o guincho, quando de repente o carro pegou tração e eu escorreguei. Acabei indo para debaixo do carro e o Baldrati continuou andando, não parou, enquanto ele visse minha cabeça ele ia continuar. Foi nessa que a porta virou ao contrário, no momento em que eu sai do carro ele começou a escorregar e a porta pegou no barranco e virou. Nós destruímos o carro visualmente e não mecanicamente, lembra Simonsen.

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Em toda a prova especial que acabava eles davam o resultado e a classificação geral.
A equipe do Brasil entrou para a última Prova. Os únicos com chancesde ganhar naquele momento eram somente eles e os Ingleses. A última prova era um circuito grande de navegação, com algumas passagens muito difíceis e o tal barranco que o Simonsencitou anteriormente era bem no final da prova, já em Manaus, com muita gente em volta desse subidão assistindo.
Quando você participava de uma prova especial você saía na colocação oposta para a próxima prova (se saísse em primeiro, na próxima seria o último e assim sucessivamente). A equipe do Brasil tinha chegado em segundo e saíram em penúltimo na última prova. Naquele dia tinha garoado em Manaus, eram 14 carros e num determinado momento chegou a uma Encruzilhada. Simonsen olhou a bússola e disse “para esquerda”, mas Baldrati percebeu que tinha pouco rastro e eles acabaram andando quase 2 km até uma porteira com um cadeado gigantesco.
Baldrati lembra que engatou uma ré naquele Land Rover e disse “Não me responsabilizo mais, saí acelerando tudo, me lembro da mão do Claudio Larangeira batendo no meu ombro dizendo, calma Baldrati, calma. Foi quando então chegamos numa pequena subida mas com uma grande descida, o carro voava e aí descia, voava e descia. Como era a última prova, não tinha nada a perder, se chegasse só com o volante na mão estava valendo”, comenta ele. “Fiquei sem oxigênio no cérebro, só via o céu e depois a terra, estava voando mesmo com o Land Rover, mas não deu, ficamos em segundo”.
Só o fato de ter participado já foi uma vitória, mas quando você percebe que tem uma chance real de vencer; o Brasil nunca tinha feito uma classificação tão boa nas provas do Camel Trophy, sem dúvida o segundo lugar é bacana. “Foi um evento que marcou a minha vida”, diz Baldrati.
Ricardo Simonsen desenvolveu um programinha numa HP 65 para a navegação nas provas de regularidade e que levaram a dupla no “timing” certo. “O Baldrati pilotava bem, quando tinha aquelas provas de pular no rio ele ficava na direção e eu caia na água, a parceria funcionou muito bem, tanto que chegamos em Segundo. Nós em algum momento estávamos lá atrás, acho que depois da terceira prova estávamos bem atrás e fomos recuperando. Nós começamos bem, caímos e depois fomos voltando e a pontuação foi assim: os ingleses 110 nós 108 e os espanhóis 80, ou seja, o primeiro e o segundo colocado estavam longe do terceiro e foi por um detalhe, um pouquinho mais e poderíamos ter ganhado”, diz Simonsen.
O meu maior aprendizado lá foi que o ser humano se adapta ao meio em que está, e em nenhum momento eu pensei “o que eu estou fazendo aqui”. Se você está determinado, seja lá no que for, você se adapta em qualquer condição, não tem o que segure, haja vista as condições que enfrentamos”, finaliza Baldrati.